Por Henrique Fernandes
“... Meu coração
Não sei porque
Bate feliz
Quando te vê ...”
Conversando com alguns amigos, dei-me conta de que não conheço absolutamente nada sobre a história da música popular brasileira e não estou nesse barco sozinho. Muitos acham que conhecem a fundo o infinito universo dos músicos e das histórias vividas nesse mundo onde boemia, música e genialidade se fundem.
Sou sincero em afirmar que nada conhecia sobre Pixinguinha. Sabia, claro, que ele era um sujeito que tinha ficado famoso por ter feito uma composição de muito sucesso – Carinhoso - , música datada de 1924, cuja letra foi feita por Braguinha.
Escutei muitas histórias sobre Pixinguinha e, pesquisando sobre esse ilustre brasileiro, relato a seguir um pouco desse músico que faz com que tenhamos orgulho de sermos brasileiros.
Pixinguinha, ou Alfredo da Rocha Viana Filho, nasceu na data de 23 de abril de 1898, no Rio de Janeiro, recebendo o mesmo nome do pai. Uma curiosidade é que sua avó, trazida da África, o chamava de Pizidim. O apelido pegou. Já crescido Alfredinho indagou a avó o significado de Pizidim e ela explicou:
- Isso é nome africano, meu neto; pizin quer dizer bom e dim menino. Você é um bom menino.
Alfredo da Rocha Viana Filho, ou Pixinguinha, foi autor de dezenas de valsas, sambas, choros e polcas. Compôs orquestrações para cinema, teatro e circo, além de arranjos para intérpretes famosos, entre os quais Carmen Miranda, Francisco Alves e Mário Reis. Considerado o maior flautista brasileiro de todos os tempos e mestre do chorinho, Pixinguinha desde pequeno dedicou-se à música. Aprendeu a tocar cavaquinho com os irmãos Leo e Henrique e aos 11 anos já dominava o instrumento. Seu pai, um excelente flautista, também foi mais um dos mestres que Pixinguinha teve em seu ambiente familiar
Esse ambiente musical que o envolveu durante a infância aparece em um depoimento feito ao MIS (Museu da Imagem e do Som), no qual ele afirma: “às vezes a turma de músicos tocava até tarde e eu era mandado para a cama. Mas não dormia. Ficava prestando atenção e no dia seguinte procurava tirar em minha flauta de lata os chorinhos que tinha escutado até de madrugada”. É nessa época que Pixinguinha compõe sua primeira música, Lata de Leite, na qual retrata musicalmente a brincadeira de crianças que bebiam o leite que era deixado no portão da casa dos outros.
Com 14 anos, Pixinguinha tocou no Cine Teatro Rio Branco e começou a trabalhar na Casa Chope Concha, na Lapa. Depois, sempre levado à Lapa pelo irmão China ou por algum músico de confiança de seu pai, o jovem Pixinguinha começou a tocar nos mais famosos cabarés do Rio como O Ponto, ABC, O Castelo, e daí para O Cine Teatro Rio Branco, onde entrou na orquestra, com a fama de grande flautista.
Ainda adolescente, Pixinguinha já possuía um currículo considerável e acumulava uma vasta experiência como músico de cassino, cabaré, cine-teatro, casa de chope, diretor de harmonia de ranchos e músico profissional.
Como todo grande criador, Pixinguinha enfrentou algumas polêmicas durante sua longa carreira. A primeira delas foi com Antonio Maria Passos, Flautista da orquestra do Teatro Rio Branco, que, ao faltar nos ensaios da orquestra, foi substituído por um garoto de 15 anos chamado Bexiguinha (Pixinguinha), vindo a perder o emprego, logo em seguida, para o tal garoto.
A história de Pixinguinha também conta com conjuntos musicais que marcaram época, como os Oito Batutas (1919), grupo formado por ele (flauta), Donga (violão), Nelson Alves (cavaquinho), China (canto, violão e piano), Raul Palmieri (violão), José Alves (bandolim e ganzá) e Luis de Oliveira (bandola e reco-reco), tocando um repertório que incluía maxixes, canções sertanejas, batuques, cateretês e choros.
Foi em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, que os Oito Batutas ganharam o mundo. Em janeiro de 22, eles foram para Europa como o primeiro regional brasileiro a sair do país para uma excursão. Foram para ficar 30 dias e ficaram seis meses. Só voltaram por saudades do Brasil e para não perder as comemorações do Centenário da Independência.
O regresso da Europa, mesmo depois de tanto sucesso, também gerou algumas polêmicas por aqui, pois Pixinguinha, ao chegar ao Brasil, decidiu alterar a formação dos Oito Batutas, introduzindo instrumentação nova e ampliando o número de músicos para dez ou doze componentes. Isso foi o suficiente para os puristas de plantão acusá-lo de querer copiar as jazz bands americanas, o que era, no mínimo, uma demonstração de total desinformação musical, pois sax e pistão já haviam sido utilizados no choro por Anacleto de Medeiros, que morreu em 1907.
Bom de música, de amigos e de copo, Pixinguinha foi uma das figuras mais representativas da cultura e da cidade do Rio de Janeiro.
Boêmio, tinha uma mesa no Bar Gouveia, uma uisqueria, na Travessa do Ouvidor, na qual seu nome foi gravado em ouro, marcando a mesa reservada para seus uísques.
Pixinguinha considerava-se um boêmio caseiro - daqueles que vão da casa ao bar e do bar a casa- e era freqüentador assíduo de alguns bares determinados. Sua boêmia ficava ainda mais brilhante e suntuosa em suas festas de aniversário -verdadeiras comemorações a ele e à música popular. Nestas festas não podiam faltar duas coisas: o uísque e uma frase que Pixinguinha sempre dizia: “minha vida foi sempre bem vivida na boemia”.
Dentro da nossa música Pixinguinha é um mundo. Ritmos musicais como o samba não existiriam como são hoje caso não houvesse a figura de Pixinguinha em sua história. Mário de Andrade dizia que Pixinguinha surgiu quando “a música popular tornou-se violentamente a criação mais forte e a caracterização mais bela da nossa raça, nos últimos dias do império e primeiros da República”.
Pixinguinha morreu no dia 17 de fevereiro de 1973, aos 75 anos de idade, encerrando assim uma das mais belas épocas da música popular brasileira.
...................................................................
Henrique Fernandes é jornalista.















