Por Guilherme Said
Indícios, de Eduardo Fiuza Filho, é destaque nessa semana no Portal SóCultura.com. O livro, disposto em vinte e cinco contos bem contados, nos dá a certa dimensão do grande contador de histórias que é este autor cearense. Leia um pouco da obra, e reconheça, como citou a poetisa Neide Freire, "a originalidade das bem elaboradas urdiduras de seus contos, um novo estilo na arte de contar."
O NOTICIÁRIO
Segunda-feira. Como todo início de semana, a mesma coisa. Pelo menos para Nélio, que ligava a televisão na hora do noticiário enquanto sua mãe se arrumava para assistir a novela que viria em seguida. Há quatorze anos moravam apenas os dois naquela casa, onde a rotina já estava instalada, enraizada, assim como a morosidade, a apatia e as notícias da TV...
- Vem mãe, começou o noticiário!
- Espera! Tô secando o cabelo! Assiste aí e vai me dizendo!
Boa noite!
Faleceu hoje pela manhã, em Detroit o lendário Doutor C.C. Homeson. Conhecido pelos enigmáticos livros “O sentido e o comprometimento entre as equipes médicas que não se dissociam do Sistema de Saúde”, “Identificando pontos críticos na valorização de fatores subjetivos” e “A causa do impacto indireto na reavaliação dos procedimentos normalmente adotados na medicina atual”. O mais premiado oftalmologista e otorrinolaringologista do século (apenas o francês Corneuve Chatelet obteve maior premiação que ele, mas no século anterior), foi encontrado morto no Hotel Premier Two Thousand, em Detroit, onde participava de um congresso sobre Pneumoultramicoscópicossilicovulcanoconiótite, uma doença rara causada pela inalação de cinzas vulcânicas.
Nascido no Colorado, na primeira década do século passado, começou a estudar medicina ainda jovem. Mudou-se para uma região desconhecida, entre a Georgia e o Tenesse, passando alguns meses em um trailer na Carolina do Norte. Aos doze anos foi preso após ser encontrado escondido na UTI do hospital de Sormends Med, em Michigan, especializado em cirurgias cardiovasculares. Passou cinco anos no principal reformatório de Detroit, onde nas horas vagas estudava medicina através de cursos por correspondência e de seus apontamentos cirúrgicos colhidos no tempo em que ficou clandestinamente na UTI em Michigan. Formou-se aos vinte e um anos e logo começou o primeiro dos oitenta doutorados que concluiu. Era um homem que se dizia apaixonado pela família.
Sua esposa, Mary C. Swimingpoolson, ainda não decidiu onde será o velório e aguarda a liberação do corpo para os preparativos fúnebres. Doutor Homeson deixou, além da mulher Mary, três filhos do casal:
Gardenson, o mais velho, que desde pequeno gostava de aeromodelismo, mas desistiu de ser piloto após o trágico acidente aéreo que levou seu colega, Stuartlly, à morte ao ser esmagado por um aeromodelo de médio porte, do pai, Ken Tuck. Gardy, como é chamado pela família, atualmente organiza eventos de moda com ex-aeromoças, e está a caminho de Detroit.
Kitchenson, o filho do meio, decidiu largar o último ano do curso de culinária setorial reciclável para se dedicar aos esportes. Antes de completar um mês como técnico da equipe campeã estadual de squash no saibro, foi convidado para trabalhar em uma multinacional do ramo de eletrodomésticos, recusou e hoje ajuda a mãe nas aulas de natação fluvial. É o que mais apóia a viúva no momento da dolorosa perda.
Bathroomson, o caçula, sempre adorou animais. Demonstrou, desde a infância, indícios que levaram a família a crer no seu interesse pela veterinária, única área que seu pai não havia estudado. Os anos se passaram e Bath não entrou na faculdade, mas dedica boa parte do seu tempo nas pesquisas sobre o futuro dos caprinossauros de laboratório.
O local onde o corpo será velado ainda não foi divulgado pela família.
Voltamos em um minuto.
- Mãe, sabe quem morreu?
- Quem?
- Aquele doutor famoso...
- O da Irlanda do Norte, que descobriu aquela vacina?
- Não, mãe. Aquele da doença do nome estranho...
- O da poeira do vulcão?
- Esse mesmo!
- Thompson.
- Não mãe, Homeson.
- Esse nome mesmo. Morreu de que?
- A polícia não sabe ainda. Tá investigando.
- Diziam que ele tinha a doença do vulcão, mas não sei se é verdade.
- Sei não... Falou da família do cara e tudo.
- O mundo tá cheio de doença, filho. E quem acaba sofrendo é a família...
Estamos de volta com uma notícia bombástica! Cientistas políticos afirmam que as experiências acumuladas demonstram que a constante divulgação das informações maximiza as possibilidades em relação aos índices pretendidos. Veja a reportagem de Tiff Spainer:
O cuidado em identificar a influência da mídia sobre a sociedade enquanto parte integrante de um macro organismo oferece uma interessante oportunidade para verificação das formas de ação. Ainda assim, existem dúvidas a respeito de como o julgamento imparcial das eventualidades estimula a padronização dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições.
- Evidentemente, o entendimento das metas propostas desafia a capacidade de equalização do investimento na modernização. – Disse o senador Kevin Straight.
Já o senador Tobe Nail, criticou a atitude do colega e afirmou:
- No entanto, não podemos esquecer que o consenso sobre a necessidade de qualificação assume importantes posições no estabelecimento do fluxo de informações. Isso nada impede que façamos a nossa parte sem esquecer do direito do cidadão.
Segundo o especialista político, Sam Parthphill, pensando mais em longo prazo, a revolução dos costumes possibilita uma melhor visão global das condições financeiras e administrativas exigidas.
- A certificação de metodologias nos auxilia a lidar com a consulta aos diversos fatores e talvez venha a ressaltar a relatividade de alternativas às soluções ortodoxas. Basta que a população admita e reafirme o que foi dito no congresso. – Completou o especialista.
Eu sou Tiff Spainer. Uma boa noite e assista agora à novela “O Entardecer Mágico”.
- Mãe, sabe da notícia bombástica?
- Começou a novela, filho?
- Vai começar agora. Você ouviu o que eu disse?
- Sobre o que?
- Sobre a notícia bombástica.
- Não. Prenderam a Soninha? A Cafetina?
- Não, mãe. Aquele repórter que sofreu um acidente ano passado, no Himalaia, lembra?
- Sei. Aquele com a cara engraçada!
- Isso mesmo. Ele voltou. Está nessa emissora agora.
- É?
- E entrevistou uns políticos aí.
- Isso não vai dar em nada menino. O mundo tá assim mesmo filho...
- Sei não... Acho que vem coisa por aí...
- Silêncio! Vai começar a novela.
(Página 62 do Livro Indícios, de Eduardo Fiuza Filho)
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Eduardo Fiuza Filho nasceu em 1975 no Rio de Janeiro, mas reside em Fortaleza desde 1989. É Consultor Empresarial, formado em Tecnologia e Processamento de Dados, MBA em Administração, Finanças e Negócios, Mestrando em Gestão Estratégica, com mais de 15 anos de experiência em implantação de sistemas, projetos e soluções corporativas. Como escritor, estreou na literatura em 2005, com o roteiro Por estar só, selecionado entre os vencedores de um concurso nacional. Em 2009 publicou Indícios, seu primeiro livro de contos, elogiado pelo público e crítica. É membro da UBE – União Brasileira de Escritores. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.


















