Por Guilherme Said
José Mário da Bahia e Mayara do Acre foram os sortudos desse mês. Eles irão receber em casa o livro de contos da jornalista carioca Adriane Salomão. O jeitinho brasileiro, a malandragem carioca, a mulher sempre atrasada; a solidão, o preconceito, as mazelas sociais; conto de fadas, bumba-meu-boi, imaginário brasileiro. São diversos os cenários e tipos brasileiros nos contos de estreia da autora, que trazem um retrato da sociedade com seus mitos, rótulos e verdades. Leia um pouco da obra!
UM SORRISO NEM SEMPRE ENIGMÁTICO
Era o rei da cocada preta. Sabia tudo. Facão Peixeira controlava as esquinas, as mulheres, os pivetes, os viciados. Até a quantidade de cachaça que entrava e saía ele sabia. Não tinha papas na língua e não tinha mais ou menos. Ou era, ou não era.
Mas não era mau, não. Era homem de coração, diziam. Devoto de São Jorge. Contam que cuidou da mãe até seu último suspiro. Não lhe faltou nada e o enterro foi de rainha. Para ela, Facão Peixeira era Altair Ramiro Gomes Lucena Monteiro, nome de conde, de visconde, de barão do café.
Para as mulheres ele era mais do que isso. Facão Peixeira era bom amante, ainda que não ficasse mais que uma noite. Sorria para todas, tratava-as com lenço de seda nas mãos e leite de rosas. Facão Peixeira não deixava nenhuma delas passar necessidade. Sempre sorria. E para aquelas mulheres da vida, aquele sorriso era tudo: proteção, segurança e inteligência.
Para mim aquele homem era um mistério, um enigma que não queria conhecer. Tinha alguma coisa nele, não sabia o que era, mas sentia um cheiro de sangue toda vez que ele passava. Entre todas aquelas mulheres, só eu o via diferente, só eu não me misturava àquele Facão Peixeira.
Se ele viesse por um lado da calçada, eu atravessava para o outro. Se vinha todo prosa, cheio de bem-me-quer, fechava a porta.
Só não mudava dali porque não tinha condição, e mesmo porque Alcides, meu noivo, estava sem trabalho.
Para ver aquele homem falante, sempre bem vestido, cheio de cordões e chapéu, só pela fresta da janela. Vigiava sempre se ele estava por perto na hora em que eu saía ou entrava.
Quando Alcides vinha, eu o forçava a dizer coisas da nossa intimidade para deixá-lo entrar. Se não, não entrava. E que não viesse com leite de rosas! Não queria nunca ser uma daquelas mulheres daquele Facão Peixeira. Não precisava daquele homem para nada.
Um dia, Alcides chegou furioso, não agüentava mais não poder entrar livremente em casa e começou a questionar que aquele medo todo queria dizer outra coisa: coisa de mulher que quer outro homem.
- Ta satisfeita, não, nêga?!
Sem resposta, Alcides ficou uma fera. Saiu, trancou a porta por fora. Voltou pior e, transtornado, descontou tudo: a falta de emprego, a desconfiança, ciúme e até a derrota do time de futebol. Da casa, não sobrou nada inteiro. Nem eu. Alcides me chutou de um lado para o outro até eu cair na ponteira da cama e não ver mais nada. Sentia só o gosto do sangue na boca e um bolo no estômago.
Quando pude, olhei para o lado. O quarto todo quebrado, as coisas espalhadas.
Sentado na cadeira, Facão Peixeira. Chapéu baixo na altura dos olhos, terno impecável, camisa vermelha, lenço de seda numa mão, o cigarro aceso na outra. Não disse uma palavra. Apenas aquele sorriso soprado com a fumaça.
No chão, Alcides. Uma faca enterrada nas costas e o sangue esparramado.
Antes do último suspiro, decifro, enfim, aquele sorriso. Passo a entender aquelas mulheres, aquela devoção toda àquele homem. Um anjo torto. Sem forças nem mesmo para cuspir o sangue da boca, percebo que, no último instante da minha existência, me tornei tudo o que nunca quis: ser uma mulher da vida, da vida de Facão Peixeira. E não dá mais tempo de mudar de calçada, nem de trancar a porta.
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ADRIANE SALOMÃO nasceu em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1967. É jornalista formada pela Faculdade da Cidade (hoje UniverCidade), no Rio de Janeiro. Como repórter atuou nas editorias de economia, política e cidade de diversos jornais entre eles Jornal do Brasil, O Dia, Jornal do Commercio e Tribuna da Imprensa.


















