Este trabalho visa avaliar o pressuposto de que os mass media possuem um alto valor de persuasão e que para isso adota técnicas para manipular o público de massa, passando pelo viés da teoria hipodérmica e a teoria do espelho. O artigo em questão pretende analisar a construção da realidade da película hollywoodiana Avatar ao apresentar algumas características da linguagem cinematográfica.
Para início da discussão, será tratado o conceito da sociedade de massa. No período entre guerras do século passado e com a difusão das comunicações de massa, nasceu a teoria hipodérmica que visava estudar os fenômenos das comunicações de massa fazendo ligação direta com as trágicas experiências totalitárias daquele período histórico.
O principal elemento dessa teoria é estudar a presença explícita de uma teoria da sociedade de massa no viés comunicativo. Também podemos descrever o modelo hipodérmico por ser uma teoria da propaganda e sobre a propaganda.
A compreensão da teoria hipodérmica é fundamental para o entendimento do conceito de sociedade de massa:
Para além das oposições filosóficas, ideológicas e políticas existentes na análise da sociedade de massa – interpretada quer como a época de dissolução da elite e das formas sociais comunitárias, quer como o início de uma ordem social mais participada e partilhada, quer, finalmente, como uma estrutura social gerada pela evolução da sociedade capitalista – há certos traços comuns que caracterizam a estrutura de massa e o seu comportamento. A massa é constituída por uns conjuntos homogêneos de indivíduos que, enquanto seus membros, são essencialmente iguais, indiferenciáveis, mesmo que provenham de ambientes diferentes, heterogêneos e de todos os grupos sociais (Wolf, 1997, p. 25).
Além disso, a massa é composta por sujeitos que não se conhecem que estão separados uns dos outros no espaço e tem pouca ou nenhuma possibilidade de influências recíprocas. Em vista disso, podemos afirmar que a massa não possui tradições, regras de comportamento ou estrutura organizada.
Muitos temem à onipresença e ao poder em potencial dos meios de comunicação. Há a preocupação com os atuais efeitos dos mass media sobre seu público, levando-o a capacidade crítica a um “inconsciente inconformismo”. Além do estado atual dos instrumentos de comunicação da sociedade, que acabam por deteriorar os gostos estéticos e dos padrões culturais populares.
Os meios de comunicação servem para reafirmar as normas sociais, expondo os devaneios dessas normas ao público, o que possibilita a transparência dos relacionamentos dos mass media com os problemas periféricos da estrutura social. Outra conseqüência social dos mass media que passa despercebida é a função narcotizante. Para melhor entendimento, Merton (2000) explica:
O estar exposto a essa avalancha de informações poderá servir para narcotizar (entediar) o leitor ou ouvinte mediano, em vez de estimulá-lo. Assim como uma maior parte de tempo é dispendida em ler e ouvir, temos uma menor parcela disponível para a ação organizada. O indivíduo lê descrições de questões e problemas, inclusive até discute linhas de ação alternativa. Mas esta ligação remota com a ação social organizada, de certa forma intelectualiza, não é ativada. O cidadão interessado e informado pode contentar-se com seu elevado grau de interesse e informação e negar-se a ver que se absteve de decisão e ação.
Merton implica dizer que o indivíduo toma seu contato secundário com o mundo da realidade política, pela leitura de sua condição e de seu pensar, como ação indireta. Ele conhece os problemas cotidianos, mas não atua sobre eles. O sujeito fica preocupado, pois, está informado e até possui ideias acerca do que deve ser feito. Porém, depois de ter terminado sua refeição e de ter escutado seu programa de rádio ou televisão preferido, já é hora de ir para a cama.
De fato os mass media aumentaram o nível de informação das populações. Sem intenção consciente leva-os a uma mera participação passiva, sem entendimento profundo. Nessa lógica, a própria intenção de controlar o sistema, se baseia pela simples ocorrência que aquele que paga mais é quem manda mais. Por isso, consideraremos neste trabalho que os efeitos sociais dos mass media norte-americanos, lidam com as empresas privadas, a luz de um modelo de administração que visa o lucro.
A LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA
Os programas radiofônicos, televisivos, cinemas e revistas se dedicam ao entretenimento e isso nos obriga a avaliar o impacto dos mass media sobre o gosto popular. Não podemos deixar de abordar os enredos cinematográficos estereotipados, repleto de heróis, heroínas e vilões que se movem em tramas de sexo, pecado, traição, sucesso, dentre outros, são mais que evidenciados nos filmes hollywoodianos.
O cinema de hoje é totalmente diferenciado dos modelos da gênesis do mesmo. É a arte em movimento, de certa forma apressada, em incessante solavanco e desordem. Que levam a alguns cineastas a enxergarem mudanças profundas, como em novos equipamentos, transmissão de satélite, geração eletrônica de imagens e a mais recente, as imagens tridimensionais (3D).
Ao tratar a linguagem cinematográfica, Carrière (2006, p. 24) aponta:
É ao mesmo tempo desordenada e efusiva. Não exige nada da mente, pois procura negar cérebro e olho no momento em que eles precisam estabelecer contato, assim como tenta causar um curto-circuito no nervo ótico, estimulando diretamente a visão e a audição, sem o benefício de um intermediário.
Para o autor, a jovem linguagem do cinema passou por diversificação e continua a procurar e pesquisar. O surgimento de novas técnicas de filmagem e de projeção, a teimosa guerra contra o plano, o encerrado, o enquadrado, a tirania enclausurante de um retângulo achatado contra a parede, tudo, incluindo decepções comerciais, ajuda a aperfeiçoar e a desenvolver essa linguagem.
O excessivo e o apressado são algumas das efervescências do cinema porque vivem exclusivamente das associações entre imagens, emoções e personagens e também por sua técnica e linguagem particular que proporcionam “viagens exploratórias” a nossa conduta pessoal, isto é, a arte não configurativa para quem o contempla.
Durante algum tempo acreditou-se que o “olho mecânico” do cinema podia destruir essa ilusão literária – que bastava montar uma câmera numa rua e deixá-la filmando os transeuntes para criar uma espécie de relatório cinematográfico, de cinema-verité. Mas o que dizer do enquadramento, que circunscreve um determinado trecho da rua? Ou das lentes imóveis ante o tempo, que relega ao passado todas as coisas filmadas? O que dizer de nosso olhar contemplativo, de nossa escolha dessa rua específica? Onde está a verdade? E qual verdade? (Carrière, 2006 p.39).
Ao levarmos o “olho mecânico” para os estudos da comunicação, observamos que esse aspecto pode ser entendido pela teoria do espelho, que por sinal, é a primeira metodologia usada na tentativa de compreender a constituição das notícias, gestada no início do século XIX.
A TEORIA DO ESPELHO
A teoria do espelho diz que as notícias são da forma como a sociedade as conhece porque a realidade assim a determina. A imprensa funciona como espelho do real, apresentando reflexo claro dos acontecimentos cotidianos. Segundo essa teoria, o Jornalista seria um mediador que observa a realidade e emite um relato equilibrado e honesto de suas observações, mas tomando o cuidado de não emitir opiniões pessoais. Seu objetivo é unicamente informar, ato que deve ser feito com objetividade.
Os fatos por si substituem os comentários e se tornam expressão da verdade. Tal teoria dá legitimidade ao jornalista que assume papel de imparcial. Contudo, a teoria do espelho tem se mostrado limitada, pois, basta a simples argumentação de que a linguagem neutra é impossível de ser constituída, uma vez que há sempre mediação nos acontecimentos. Compara-se ao cinema porque todo ângulo, plano, movimentos de câmeras, efeitos sonoros, inclusive o silêncio, já são um recorte da realidade, ou seja, é o olhar do diretor sendo imposto em todo o decorrer da trama cinematográfica.
Ao assistirmos os filmes norte-americanos, encontramos técnicas que são exclusivas desse meio de comunicação de massa: os efeitos sonoplásticos, a música, a trilha sonora, o zapping, o traveling, os jogos de câmera, tempo curto (geralmente a duração é de 90 minutos) e o silêncio, cuja função é impactar quem assiste.
Hollywood abusa dessas características. Principalmente o silêncio que acaba por emocionar o espectador. Em Avatar, essa peculiaridade é encontrada quando os humanos atacam Pandora. Por alguns instantes, a câmera percorre lentamente para revelar toda a destruição e ao mesmo tempo, é mostrado às faces de terror do povo Navi. Ora, o som também é um aspecto relevante no filme, quando os humanos agridem fervorosamente os “nativos” há o aumento do som que vai se tornando mais rápido tendo o acompanhamento das cenas, que por sinal são efêmeras também.
A linguagem narrativa que é a básica (início, meio e fim) também pode ser colocada por narrativa universal, já que é facilmente compreendida em todo o mundo. As imagens tridimensionais, brilhantes e coloridas, despertam a atenção dos espectadores que ficam extasiados ao assistir. Esse espetáculo cinematográfico dá a ideia de imersão na própria película.
A imersão se dá através de avatares que são as figuras gráficas que habitam o ciberespaço e cujas identidades os cibernautas podem emprestar para circular nos mundos virtuais (Santaella, 2003, p. 82).
De acordo com Phillipe Quéau (1993) um mundo virtual é baseado por dados gráficos interativos, explorável e visualizável em tempo real sob a configuração de imagens sintéticas tridimensionais de forma a dar um sentimento de imersão na imagem.
A linguagem voltada para o virtual não é simplesmente uma técnica a mais na história das representações, é no sentido literal, o surgimento de uma nova escrita que pode ser comparável a invenção da imprensa. A linguagem virtual é uma escrita interativa e imersiva que surge nas comunidades virtuais, nas cidades e mundos virtuais.
Os ambientes digitais aumentam nosso campo de possíveis, de experimentar sensações, lógicas e composições que estão além dos limites do espaço concreto.
Para reforçar o conceito de ambientes digitais, Epstein afirma:
A partir de 1980, o computador revolucionou a animação. Não só tornou a arte final menos trabalhosa, como produzia um resultado bem mais realista – a chamada animação 3D. Agora que é possível escanear os desenhos em formato digital no computador, seus diferentes elementos podem ser arranjados em combinações quase infinitas. Basta, para isso, acionar os comandos corretos e ter os programas que executam as tarefas repetitivas (2008, p. 170).
CONSTRUÇÃO DA REALIDADE
A imagem abandona a categoria da representação para constituir-se em uma virtualização interativa de um modelo. A foto, o desenho ou o filme, ganham profundidade, acolhem o explorador ativo de um modelo digital ou um coletivo envolvido na construção de um conjunto de dados. Ou ainda, “a obra virtual” é aberta para construção (Lévy, 1999, p.136).
Os dispositivos virtuais são potencializadores do cinema, fruto da dinâmica de trabalho compartilhado entre os participantes dessas experiências, performances e trabalhos artísticos em que temos a presença dividida do espectador.
Pelo o que foi apresentado sobre os mass media e sobre a linguagem cinematográfica, tentaremos observar como se dá a construção da realidade em análise do filme Avatar.
Em síntese do longa-metragem, Avatar é voltado para todos os tipos de públicos e traz uma reflexão (não menos que atual), na verdade chega a ser quase apelativo, que é chamar a atenção do mundo para a consciência ambiental somada as imagens tridimensionais.
Ainda neste trabalho, foi exposto que o filme optou por narrar à história de uma maneira em que as pessoas já estão acostumadas com o discurso direto: início, meio e fim; nisso, podemos dizer que é um fator da construção da realidade. Pois, não foi levado em questão problematizá-lo, o que é típico dos filmes norte-americanos que segue o raciocínio do mercado capitalista global.
O regime global por inteiro é o resultado de iniciativas políticas neoliberais, estimuladas pelo governo norte-americano. O mais importante é que, não muito abaixo da superfície, está o papel das forças armadas dos Estados Unidos como implementadora do capitalismo, com as empresas e os investidores sediados naquele país segurando o volante (Mcchesney 2003, p. 239).
Outro aspecto que foi encontrado é a disputa entre o bem e o mal: o general e seus seguidores (soldados) contra os cientistas. Mas, um soldado e um piloto que fazia parte da missão Avatar, não concordavam com o pensamento dos líderes para destruir o mundo dos Navi, visando à extração do mineral em seu subsolo como meio de repor esses recursos quase inexistentes em seu planeta. Novamente entra em cena a questão do capital.
Como toda boa trama norte-americana, não pode faltar uma pitada de romance. O herói (que é do mundo dos humanos) se apaixona da heroína (que é do mundo dos “alienígenas”), onde os dois conseguem ficar juntos no final do filme. Os recursos sonoros foram bastante explorados, como se trata de uma película de ação, as imagens ”dançam” de acordo com a música, ou seja, as imagens acompanham os altos e baixos da sonoplastia.
Entretanto, a característica que mais contribui para a construção da realidade, é mostrada subjetivamente: a moralidade. Valores tradicionais, solidariedade, busca de sentido da vida, formas de tratamento, tudo isso faz parte do universo da moral.
Luhmann (2005, p.132) afirma que aquilo que não é suficientemente valorizado como realidade é oferecido como moral e é exigido das pessoas. O consenso é melhor que o dissenso, deve-se estar em condições de apaziguar os conflitos (já que, de qualquer forma, só se trata de valores) e a referência à realidade, orientada primeiramente a qualidades (daquilo que é bom deve-se ter, se possível, sempre mais, não menos), deve ser neutralizada por meio da “pergunta pelo sentido”. Parece, portanto, em essência, como se a moral consistisse em se optar pela paz, pelo equilíbrio, pela solidariedade, pelo sentido.
Assim, constantemente o sentido da vida é recuperado pela moralidade já que a corrida do capital, de valores de carreira, prestígio, reputação e índices de audiência e bilheterias são fatores predominantes. A comunicação entra em questão, e em especial, o cinema, vem para reforçar os valores arraigados da sociedade, da religião, da política e da classe dominante.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Inúmeros são os desdobramentos entre o cinema e a construção social da realidade. Neste artigo foi pretendido mostrar algumas dessas características a partir do conceito de mass media, da teoria hipodérmica e da linguagem cinematográfica. O objeto empírico deste estudo percebeu que a película Avatar é alicerçada nos moldes de Hollywood.
De início, o cinema nasceu silencioso, puxando a atenção do espectador por meio das gesticulações faciais, da mímica, causando emoção indefinida individual. É claro que toda e qualquer pessoa vai sentir-se diferente do companheiro de cadeira ao lado. Entretanto, o cinema mudo, particularizava ainda mais essa ideia.
O cinema dos dias atuais se dá ao contrário, parece que procurar harmonizar, coletivizar e entreter todos que participam da sala escura. Os comportamentos e expressões dos atores são completamente diferenciados se compararmos, por exemplo, com Charles Chaplin. Há uma necessidade extrema de atrair o público em torno do espetáculo e a própria maneira dos atores querendo atuar no nível máximo de aproximação da realidade.
Para isso, os atores de Avatar se performam. De certo modo, ao tentar construir a realidade sem encenar ou performar, não há relação social. Mas a questão que foi tratada aqui, parte do princípio de que os vários mecanismos técnicos audiovisuais configuram essa construção social da realidade: seja o jogo de câmeras, a música, o traveling, o zoom, as escolhas das cenas e dos planos, o silêncio, os efeitos sonoros, as cores utilizadas, o tempo e a narrativa básica, contendo início, meio e fim.
Há poucas décadas o cinema passou e ainda passa por reinventar a sua linguagem. Com Avatar, emerge uma nova linguagem cinematográfica, a tecnologia 3D, no caso, as imagens tridimensionais não foram particularmente estudadas aqui, mas que qualifica a lógica de que a linguagem do cinema está em metamorfose, em transformação constante.
Carrière (2006, p.46) apud Milan Kundera alega sobre as sequencias cinematográficas que nos envolvem e nos inundam no dia-a-dia são tão numerosas e interligadas, que ela nomeia de “rio semântico”. Nele, nós e nossos pares nadamos sem esforço, encorajados por correntes familiares. Somente em épocas de poluição feroz somos acometidos pela brutal urgência de deter uma correnteza cuja superficialidade nos afoga, pela necessidade de estar solto, de colocar um lenço sobre os olhos e não mais ver nem ouvir. Pois uma linguagem é também uma coisa que podemos decidir parar de entender; uma coisa que pode se recusada, rejeitada.
Alguns historiadores falam em declínio simultâneo da linguagem cinematográfica, como se o uso do diálogo de maneira franca e às vezes excessivo preparasse os diretores à preguiça, abolindo a necessidade de tomadas poderosas, compactas, luminosas, ricas e emblemáticas.
As imagens de Avatar são universais, compreendidas sem esforço em qualquer parte do mundo. As cores brilhantes e até fluorescentes espantam e ao mesmo tempo dão o ar da graça, envolvendo e desenvolvendo no espectador, a ideia de imersão na tela mágica. Que acaba, na maioria das vezes, causando a não reflexão da trama conduzida, alienando-os em contexto cultural.
Para reforçar essa ideia, o filme traça peculiarmente os valores morais de uma sociedade perfeita. Irmandade, paz, adoração à natureza e o respeito ao próximo são evidenciados em Pandora. Em sentido oposto, os seres humanos lutam entre si levados pelo valor econômico, sendo que este é o mais importante, deixando qualquer outro tipo de valor na periferia. É nessa hora que os papéis são invertidos: tornamo-nos alienígenas.
Darwin aponta a evolução humana como algo extraordinário. Viemos do macaco, inventamos a roda, veio à revolução industrial e agora vivenciamos as consequencias produzidas pela nossa própria ganância. Destruímos boa parte do mundo e por causa disso, levamos homens à Lua e a Marte para estudar a possibilidade de vivermos em outro planeta, para então iniciar o processo de dominação do mundo aliado ao modelo capitalista global.
Avatar propôs a mesma estrutura. A cobiça dos homens era ir à busca de um mineral que estava em outro planeta: Pandora. Como tentativa de mostrar o que era a realidade, o filme tentou revelar, seja na forma da narrativa, seja nos efeitos sonoros, mas sendo alicerçados pelo modelo financeiro mundial.
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Sthefanny Gozze é jornalista e articulista do Portal SóCultura.com
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