Por Ricardo Paiva
A compreensão da arquitetura e da cidade brasileira do século XVII e XVIII pressupõe a busca das raízes históricas da formação social do Brasil. A arquitetura neste período foi condicionada pelo contexto histórico colonial, marcado pela dependência econômica, política e cultural em relação à Metrópole. Esta estrutura social, após as dificuldades de fixação no território no século XVI, baseava-se na atividade agroexportadora escravocrata da monocultura da cana-de-açúcar, na pecuária que subsidiava a primeira e na agricultura de subsistência.
Este sistema sócio-econômico foi responsável pela estruturação do território, caracterizado pela ocupação da faixa litorânea na forma de rarefeitos núcleos urbanos que viabilizavam a administração e a comercialização da cana-de-açúcar, principalmente no Nordeste. Outras formas de ocupação no litoral se relacionam com pontos de defesa, fundamentais para a manutenção do domínio português, sobretudo no século XVI e XVII.
É importante destacar o papel da Igreja tanto na ocupação do território, com na formação cultural do Brasil neste período. Com a incumbência de propagar a política Contra-reformista no Novo Mundo, houve grande penetração da Igreja nas diversas esferas sociais do Brasil Colônia, com a chegada de várias ordens religiosas, a começar com os jesuítas ainda no século XVI, envolvidos com a militância de catequização dos nativos indígenas. Em contraponto à dispersão no território e a falta de integração, as ações da Igreja conferiam certa unidade cultural ao Brasil.
Nos dois primeiros séculos é visível o protagonismo econômico do Nordeste na manutenção das relações políticas e econômicas com a Metrópole, uma vez que a atividade da cana-de-açúcar se desenvolvia essencialmente na zona da mata nordestina e a sede do Governo Geral se situava em Salvador.
Esta ordem social serviu de base para o processo de transculturação que resultou do embate de matrizes culturais múltiplas: a cultura nativa existente dos indígenas; a cultura européia dos colonizadores portugueses e a cultura dos africanos escravos. Não resta dúvida que a cultura emissora é hegemônica, uma vez que o poder impõe a subordinação às demais culturas. Entretanto é preciso destacar que não há mera transposição dos valores culturais hegemônicos para a Colônia. A própria cultura emissora sofre um processo de síntese e adaptação impostas não somente pela resistência do ambiente material, mas pelo contato com as culturas receptoras. Esta reciprocidade assimétrica de influências culturais marca o processo de miscigenação no Brasil, que não se reduz exclusivamente ao sincretismo cultural, mas se manifesta na miscigenação racial, traço cultural característico na formação do Brasil.
A arquitetura do período provém deste contexto. Verifica-se do ponto de vista dos programas arquitetônicos pouca diversidade tipológica, a saber: a arquitetura religiosa, a arquitetura militar e arquitetura civil de função pública e privada.














