Arte como Experiência de Vida
Dom, 17 de Maio de 2009 21:00
Coordenação do Site
Por Fátima Seehagen
Desenhar é, antes de tudo, na prática, esboçar ou registrar uma idéia apenas com lápis e papel. Idéia esta que, uma vez registrada, será uma útil ferramenta na comunicação entre pessoas. Inclusive entre aquelas de diferentes lugares, origens e valores. O desenho estimula o diálogo.
A expressão artística através do desenho como forma de exteriorizar e comunicar, atravessa toda a história do homem em todas as culturas.
O fascínio que sentimos perante obras artísticas como um desenho rupestre, gótico, renascentista ou contemporâneo, faz-nos pensar acerca do que estará no cerne destas obras para provocarem tal efeito. Diz-se que só o homem possui este fascínio e capacidade de admiração perante os fenômenos e fatos estéticos e que, portanto os "persegue", procurando exprimir-se através da arte.
O homem pré-histórico marcou na rocha seres humanos, animais, plantas, elementos do seu mundo, expressando de uma forma intensa as suas vivências.
Cada cultura possui saberes, códigos e valores próprios condicionando os sistemas de comunicação.
Também de indivíduo para indivíduo, mesmo sendo contemporâneos, o caráter da arte varia caracterizando a capacidade de representação, sensibilidade, personalidade e interesses de cada um.
Mesmo desenhos do mesmo indivíduo, por vezes variam bastante de acordo com diversas condicionantes, como a experiência, vivências, estados de espírito, etc.
O fato é que a arte do desenho vai transformar ou perpetuar idéias e valores culturais.
Certos analistas da arte referem mesmo o desenho como base das artes visuais mas eu preferiria usar a definição de Marel Toschi e conceituar o desenho como “um diálogo íntimo, revelador de que a construção da linha flui entre incontáveis sins e nãos na mente de quem desenha.”
É com a mão que fazemos os gestos de desenhar. Os instrumentos surgem como objetos que constituem o prolongamento das mãos, materializando visualmente o pensamento.
Com a aplicação de aulas totalmente voltadas ao raciocínio lógico, executado pelo hemisfério esquerdo, as escolas que ainda hoje freqüentamos não de dedicam a ensinar a modalidade de informações características do hemisfério direito. Embora os educadores se mostrem cada vez mais interessados no pensamento intuitivo, os sistemas escolares são estruturados em torno de um padrão seqüencial que ainda perpetua as respostas estereotipadas.
Para muitas pessoas o processo de desenhar parece misterioso e algo além da compreensão humana. Na verdade não é bem assim. A capacidade de desenhar e pintar é algo que pode ser aprendido por qualquer pessoa normal, dotada de visão e coordenação motora mediana, com habilidade suficiente para enfiar uma agulha de costura ou atirar uma bola à distância.
Se você pode escrever, desenhar letras, então pode se expressar através das artes visuais.
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é artista plástica, professora de arte e coordenadora do de Fátima Atelier em Cuiabá, Mato Grosso. O de Fátima Atelier, uma Escola de Artes com mais de 10 anos no mercado, lançou em 2003 o "Curso de Pintura e Desenho on line", um programa de Ensino de Arte a distância, que pode ser visualizado no endereço: http://www.defatima.com.br/saladeaula/
Última atualização em Ter, 11 de Agosto de 2009 23:49
Cidade, a Embalagem da Memória
Dom, 17 de Maio de 2009 20:48
Coordenação do Site
Por Almandrade
“A memória é um campo de ruínas psicológicas, um amontoado de recordações.” Gaston Bachelard
A memória conquista sua existência nas armadilhas de uma linguagem, atravessa o tempo, envolve cidades e gerações; é uma das razões da recordação e da imaginação. Sem ela o homem estaria perdido no vazio de seu destino, sem condição para habitar nem mesmo a caverna. Pela memória o passado se incorpora à vida presente, e os seus elementos materiais são também suportes de evocações. “A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir” (Ítalo Calvino). A permanência do indivíduo na cidade é marcada por um tempo de atribuir significados a trajetórias a lugares freqüentados; quem não traz guardada na memória, a infância vivida na cidade ou no jardim onde brincou? Me faz lembrar Barthes por Barthes: aquela fotografia do escritor adolescente em um grande jardim onde se deram inesquecíveis “episódios da sexualidade infantil”. Só os sonhos desconhecidos não depositam suas imagens na memória, se perdem no fundo do inconsciente. Para a psicanálise: o esquecimento é motivado pela repressão e nele pode está escondido um significado secreto.
Os bens artísticos são instrumentos que veiculam e fazem parte da memória de uma civilização, de uma cidade, de um grupo social; eles transportam pelo labirinto dos anos e séculos uma dimensão estética e social, transformam o território urbano em um museu eterno. No século XIX, a burguesia marca seu domínio na cidade com os mais diversos monumentos arquitetônicos e artísticos destacado no tecido urbano, para serem contemplados como valores eternos. “Sem a razão, a memória é incompleta e ineficaz” (Bachelard). É preciso se refletir sobre o sentido oculto dessas imagens que se apresentam como atemporais semelhantes às fotografias tiradas em viagens turísticas. Diferentes dos animais irracionais que constroem seus ninhos basicamente por instinto, buscando uma forma favorável para a acomodação de seus corpos, a construção do homem não é vazia de significados simbólicos.
A cidade é heterogênea, produto de várias sociedades e de contraditórios momentos históricos; a cidade é uma enciclopédia de memórias que guardam conflitos, intranqüilidades, medos individuais e coletivos. Através de um acervo simbólico o homem documenta o seu desejo de vencer o destino. A arquitetura antes de se prestar a um determinado fim, o de abrigo de atividades realizadas pelo homem, é depósito de fantasias e imaginações. “Os edifícios não vivem somente por aquilo que têm de visível, de físico, mas também pelas reflexões sobre a memória de gerações e pessoas” (João Rodolfo Stroeter). Às vezes são construções que contradizem a opinião pública, a racionalidade e a necessidade de uma época, mas com o decorrer do tempo passam a incorporar o acervo simbólico de uma cidade. A memória é construída também às custas de sacrifícios e desperdícios, operações de perda, diria Bataille, semelhante ás coisas sagradas e aos cultos religiosos.
Na era moderna, tudo aparentemente passa rápido, assim como “... o dia desfaz o trabalho da noite”(Walter Benjamin). Subordinada a renovação urbana, a cenografia do tempo passado desaparece para atender necessidades do presente; o teatro da temporalidade moderna aspira uma memória efêmera. O triunfo da velocidade e da mídia alterou o conceito de tempo e acabou fazendo do presente um conjunto de imagens que se multiplicam em espetáculos descaracterizadores de seus significados reais. Mas as obras modernas estão aí protegidas pelo invólucro da memória.
A cidade geralmente, no decorrer de sua história é um conjunto de fragmentos de cidades que vão se edificando umas sobre as outras, que se substituem e se acumulam. Dos templos gregos à capela de Ronchamp, das pirâmides egípcias aos arranha-céus transparentes, dos estádios romanos à casa da cascata; cada sociedade produz os elementos particulares de configuração espacial de sua existência. Parte de nossa memória se encontra fora de nós, em nossos objetos, nos lugares construídos e vividos.
A cidade contemporânea é uma colagem de estilos arquitetônicos, o antigo é conservado muitas vezes com a intervenção do novo, sem contudo, desconfigurar sua condição de suporte de uma memória. São signos de realidades complexas que o olhar arqueológico revela. E antes de tudo, é preciso preservar dentro das condições da vida presente. Quem visita o mercado modelo em Salvador restaurado depois do incêndio, percebe o lugar simbólico que representa o ambiente favorável às funções cotidianas que o edifício deve atender. O uso sutil da tecnologia moderna devolve a memória um pedaço do passado enriquecido com a presença do presente. Nesse caso, o histórico e o atual são componentes simbólicos que não interessam por si só isolados, eles tecem uma rede de relações entre si, para dialogar e memorizar a forma e o símbolo de tempos distantes. Um monumento é também um acúmulo de conhecimentos e de memórias temporais. O centro da capital da colônia portuguesa, erguido por Tomé de Souza e seu mestre de obras Luiz Dias, em 1549, conservou até hoje, mesmo desprezado, sua condição de centro simbólico, lugar da origem de uma história.
Se o passado é preservado é porque ele tem sempre algo a dizer para situar e referendar o presente. Uma cidade não é feita somente do desenho de ruas e arquiteturas, ela é feita também de sonhos, segredos, interpretações objetivas e subjetivas que vão se armazenando no seu desenho. Bairros, praças, ruas, edificações, monumentos e até mesmo seus respectivos nomes, documentam a ficção vivida de uma cidade. A memória de uma cidade é também a memória de seus habitantes. Não poderíamos imaginar o novo sem acreditar em nada, sem recorrer à história. A invenção dos significantes identificadores do presente depende da capacidade de raciocínio, e este pressupõe um fundo de memória. Sem a memória toda a percepção seria inútil e o passado um vazio sem acesso.
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Almandrade é Artista plástico, poeta e arquiteto
Última atualização em Qui, 11 de Junho de 2009 02:32
O Centro Histórico e a Memória da cidade
Dom, 17 de Maio de 2009 19:26
Coordenação do Site
Por Almandrade
O passado de uma cidade é sempre construído no presente. A imaginação reanima e enriquece a memória. O tempo quando desliza no território urbano, deixa imagens que falam de uma outra época. Um cenário sempre restaurado ou reconstruído para que a cidade fale do seu passado ou de uma eternidade sonhada pelo próprio homem. A cidade vive na memória de seus habitantes e visitantes, quando ela provoca lembranças. Uma cidade quando desfaz de seu passado, é uma cidade perdida no tempo, sem memória, sem vida, sem referencia, acaba comprometendo seu futuro. “A memória é a construção do futuro, mas que do presente,” (Murilo Mendes). E a dialética do novo e da tradição dá um significado especial ao presente.
Da mesma forma que as palavras às vezes sonham e falam de coisas que não entendemos direito, a imagem urbana construída em outros tempos fala de um passado desconhecido, datado pelo trabalho da imaginação e da memória. Como não devanear diante de um centro histórico? Podemos assim sonhar com a própria história. Temos este direito de dar asas à imaginação e deixar que o devaneio fale do passado da cidade. O restaurador é um pouco poeta quando corre atrás das mais remotas lembranças, quando escava imagens onde repousam fragmentos do tempo.
Não é possível recuperar o passado e suas condições de vida. “Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade”. (Walter Benjamin). A razão criadora que possui características da imaginação, dá vida às imagens que encenam a infância de uma cidade. A memória e a imaginação recuperam seus significados ou inserem novos significados, de acordo com a contemporaneidade do tempo urbano e seu processo de transformação. O centro histórico é um centro simbólico que alimenta a imaginação e a recordação do passado, através de seu acervo de imagens que mostra o olhar da historia.
Existem várias realidades, modificadas no discurso. Uma realidade se interpreta ou se lê através de um modelo. Os centros históricos vêm sendo objetos da indústria do turismo que vende um modelo onde paradoxalmente a memória é a encenação do esquecimento. O turista é o protótipo do espectador que consome a história, à distância, sem se envolver com ela, como imagens projetadas na tela de um cinema. Na cidade contemporânea as imagens superam e fantasiam a realidade, por isso é imprescindível dispor de uma disciplina para olhar a passagem do tempo nas imagens que encenam o antigo.
Um centro histórico não é o lugar de se comemorar o que passou, ele é também o lugar das sensações instantâneas do agora. Ele não conta uma única história, mas muitas histórias. A cidade está sempre em mudança de significado e função, seu passado é reinventado com as novas intervenções que falam de um outro tempo. Recordar é conferir sentido às paisagens do instante presente, onde estão encravados tempos diferentes e distantes. Mas a cidade não vive de recordações, um conjunto de usos e serviços é condição básica de sua vitalidade. Atualmente, vem se falando de um retorno ao centro, uma forma de resgate do passado, mas isso significa também readaptá-lo às novas funções da cidade contemporânea.
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Almandrade é Artista plástico, poeta e arquiteto
Última atualização em Qui, 11 de Junho de 2009 02:32
O Descaso pela Arte
Dom, 17 de Maio de 2009 18:47
Coordenação do Site
Por Almandrade
"Na época atual, a fatalidade de toda e qualquer arte é ser contaminada pela inverdade da totalidade dominadora." (Adorno)
A arte como um trabalho intelectual que amplia a experiência que o homem tem do real e do imaginário, se opõe ao trabalho alienante da sociedade moderna. Por outro lado, no meio de arte convivem compromissos e interesses alheios à própria arte; suas condições de produção se encontram dentro de um campo social e político, sujeito a um conjunto de pressões. O Estado, os patrocinadores e o mercado, visando interesses imediatos, privilegiam, muitas vezes, artistas cujas obras pouco acrescentam ao mundo da inteligência.
Última atualização em Qui, 11 de Junho de 2009 02:33
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