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Tecnologia e Humanidade

 Por Mauricio Calixto
 

Fato ou não do inconsciente coletivo, a verdade é que cada dia menos torna-se possível acreditar que o desenvolvimento dos meios técnicos, entenda-se aqui, instrumental pelo qual o ser humano aprimora sua sobrevivência, de alguma forma traz benefícios em escalas planetárias, ou faz-se força motriz para elaboração de uma sociedade mais prazerosa, idealista, enfim, com tempo e aptidão para dedicar-se ao seu desenvolvimento enquanto raça, ser. O termo mais apropriado é tecnologia, ou numa cronologia didática das escolas de pensamento: modernidade, e a pseudo-sensação que dela emana de que galgamos degraus mais elevados da existência humana, deixando os homens clássicos e medievais com aspecto de macacos, pode ser uma grande alienação.

Que o alcance da evolução dos meios, como modificadores da vida dos seres humanos, pode ser questionado de várias formas se objetivarmos premissas eloqüentes, como por exemplo o dado de que dos seis bilhões de pessoas que existem no mundo, somente cem milhões tem acesso à Internet, ou de que do interior das grandes e avançadas técnicas de cultivo da terra, é possível subtrair alimento para três vezes a população do globo, mas no entanto dois bilhões passam fome, ou ainda que em metade da África e em algumas regiões do continente asiático morre-se de gripe por não haver acesso a nenhum tipo de penicilina, não temos dúvidas.

Mas o cerne da questão aqui tratada, tange menos o conteúdo óbvio de que a tecnologia e a modernidade são benefícios catalisadores para uma elite minoritária dentre os exemplares da raça humana e mais a grade de problemas que doravante esta pequena fatia desencadeia nas milenares construções de valores éticos que até então se acumulou. Agindo como um vírus que embora desprezível, vem promovendo nos últimos duzentos anos a obsolescência daquilo que mais bem elaborou-se no espectro do discernimento entre certo e errado, bom e ruim, ou seja, a própria moral da civilização, o identificado como moderno hoje nos desafia a uma crítica real dos seus benefícios.

Investir fábulas no desenvolvimento de supercomputadores artificialmente inteligentes e no mapeamento e manipulação genéticas dos seres, antes de matar a fome de um terço da humanidade parece um grande desarranjo intelectual, que como toda guerra, acaba trazendo melhorias e frutos positivos, mas sempre para aquela velha minoria.

Portanto embora ocorra a criação de novas técnicas para soluções de problemas e pestes, a aplicação capital da ciência e da tecnologia nos questionam em equivocada oportunidade, com perguntas que não pertencem ao momento especulativo da filosofia dos homens.

Em tempos de nivelamento do pensamento, individualismo financeiro, solidão na multidão, stress e violências bestiais, onde a grande sede do ser humano é por tempo, amor, paz e felicidade, pouco se trabalha ou se investe neste campo. Impedidos de atender ao chamado para estas reflexões, a criar a tecnologia da qualidade de vida, permanecemos lançados e imersos no megalomaníaco (e por vezes desastroso) projeto de intervenção na engenharia divina, ou cósmica. Parcela totalmente desprovida de conteúdo a priori na promoção da existência psicologicamente sadia.

Destarte, pensar problemas como a clonagem de seres humanos, a configuração de suas características físicas e intelectuais, ou a possibilidade de raciocínio e até sentimentos em protótipos computacionais, analisando sobretudo seus impactos sobre os comportamentos e utilizações, como trafico de órgãos, aberrações, raças superiores, desemprego pela dominação das máquinas, desvia e esteriliza o potencial criador de instrumentos reais e palpáveis para existência, pelo homem. Ou seja, torna obscura e infinda a especulação ética, dividindo opiniões e desarticulando objetivos essencialmente revolucionários. Pois uma máquina que pensa ou um ser humano criado identicamente a outro, em laboratório, não torna mais felizes e pacíficos os seis bilhões de corações humanos que pulsam no planeta.

 

Mauricio Calixto é  Mestre em Qualidade e Especialista em Capacitação Gerencial pela Unicamp. Gerente de Informática Administrativa da Unicamp com mais de 10 anos de experiência em gerenciamento de equipes de IT, Palestrante e Consultor da THT – Tecnologia e Humanidade Training. Mais informações no site:  www.THT.com.br

 

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