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Fato
ou não do inconsciente coletivo, a verdade é que cada dia menos
torna-se possível acreditar que o desenvolvimento dos meios técnicos,
entenda-se aqui, instrumental pelo qual o ser humano aprimora sua
sobrevivência, de alguma forma traz benefícios em escalas planetárias,
ou faz-se força motriz para elaboração de uma sociedade mais
prazerosa, idealista, enfim, com tempo e aptidão para dedicar-se ao
seu desenvolvimento enquanto raça, ser. O termo mais apropriado é
tecnologia, ou numa cronologia didática das escolas de pensamento:
modernidade, e a pseudo-sensação que dela emana de que galgamos
degraus mais elevados da existência humana, deixando os homens clássicos
e medievais com aspecto de macacos, pode ser uma grande alienação.
Que
o alcance da evolução dos meios, como modificadores da vida dos
seres humanos, pode ser questionado de várias formas se
objetivarmos premissas eloqüentes, como por exemplo o dado de que
dos seis bilhões de pessoas que existem no mundo, somente cem milhões
tem acesso à Internet, ou de que do interior das grandes e avançadas
técnicas de cultivo da terra, é possível subtrair alimento para
três vezes a população do globo, mas no entanto dois bilhões
passam fome, ou ainda que em metade da África e em algumas regiões
do continente asiático morre-se de gripe por não haver acesso a
nenhum tipo de penicilina, não temos dúvidas.
Mas
o cerne da questão aqui tratada, tange menos o conteúdo óbvio de
que a tecnologia e a modernidade são benefícios catalisadores para
uma elite minoritária dentre os exemplares da raça humana e mais a
grade de problemas que doravante esta pequena fatia desencadeia nas
milenares construções de valores éticos que até então se
acumulou. Agindo como um vírus que embora desprezível, vem
promovendo nos últimos duzentos anos a obsolescência daquilo que
mais bem elaborou-se no espectro do discernimento entre certo e
errado, bom e ruim, ou seja, a própria moral da civilização, o
identificado como moderno hoje nos desafia a uma crítica real dos
seus benefícios.
Investir
fábulas no desenvolvimento de supercomputadores artificialmente
inteligentes e no mapeamento e manipulação genéticas dos seres,
antes de matar a fome de um terço da humanidade parece um grande
desarranjo intelectual, que como toda guerra, acaba trazendo
melhorias e frutos positivos, mas sempre para aquela velha minoria.
Portanto
embora ocorra a criação de novas técnicas para soluções de
problemas e pestes, a aplicação capital da ciência e da
tecnologia nos questionam em equivocada oportunidade, com perguntas
que não pertencem ao momento especulativo da filosofia dos homens.
Em
tempos de nivelamento do pensamento, individualismo financeiro,
solidão na multidão, stress e violências bestiais, onde a grande
sede do ser humano é por tempo, amor, paz e felicidade, pouco se
trabalha ou se investe neste campo. Impedidos de atender ao chamado
para estas reflexões, a criar a tecnologia da qualidade de vida,
permanecemos lançados e imersos no megalomaníaco (e por vezes
desastroso) projeto de intervenção na engenharia divina, ou cósmica.
Parcela totalmente desprovida de conteúdo a priori na promoção da
existência psicologicamente sadia.
Destarte,
pensar problemas como a clonagem de seres humanos, a configuração
de suas características físicas e intelectuais, ou a possibilidade
de raciocínio e até sentimentos em protótipos computacionais,
analisando sobretudo seus impactos sobre os comportamentos e utilizações,
como trafico de órgãos, aberrações, raças superiores, desemprego
pela dominação das máquinas, desvia e esteriliza o potencial
criador de instrumentos reais e palpáveis para existência, pelo
homem. Ou seja, torna obscura e infinda a especulação ética,
dividindo opiniões e desarticulando objetivos essencialmente
revolucionários. Pois uma máquina que pensa ou um ser humano
criado identicamente a outro, em laboratório, não torna mais
felizes e pacíficos os seis bilhões de corações humanos que
pulsam no planeta.
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