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Flagrante
do cotidiano em um consultório médico do terceiro milênio: o
executivo Roberto entrega ao doutor um calhamaço de exames e logo
fica sabendo que sua saúde não anda bem. O colesterol alcançou a
estratosférica taxa de 800 miligramas por decilitro – mesmo no
futuro, uma taxa superior a 250 miligramas indica que o sujeito vai
mal –, o que faz de Roberto um candidato fortíssimo a ter um
infarto fulminante. O caso exige cuidados imediatos. Mas, ao contrário
do que ocorre hoje, o médico não saca a caneta para gerar uma
prescrição. Limita-se a digitar em um banco de dados online a seqüência
de genes das células sangüíneas do executivo e a aguardar, por
alguns instantes, o trabalho de uma pequena impressora. É dali que
emerge uma receita completa e específica com a indicação, entre
quase 200 remédios disponíveis no mercado, daquele que melhor
interage com o paciente.
É
tudo tão rápido que a tradicional consulta médica dura só alguns
minutos. Afinal, são máquinas inteligentes, conectadas a bancos de
dados colossais, que se encarregam praticamente sozinhas do diagnóstico,
levando em consideração todas as características orgânicas e genéticas
do paciente, seu histórico médico, entre outros parâmetros.
Transformado em simples intermediário entre o paciente e a
tecnologia, ao doutor cabe apenas alimentar o sistema com dados de
análises de sangue e tecidos orgânicos realizadas – adivinhe –
por outros engenhos eletrônicos. É o máximo em automação e
customização do atendimento, num contexto em que a prescrição de
uma simples aspirina pode mobilizar e cruzar milhões de informações.
Com
certeza você ainda não conhece nenhum médico que trabalhe assim,
apesar da parafernália tecnológica já utilizada pela medicina
moderna. Mas o quadro descrito acima deverá fazer parte da vida
real nos próximos cinco anos, graças a um novo ramo da ciência
que une a farmacopéia às descobertas recentes sobre o genoma
humano – a farmacogenômica. O curioso é que, em vez de trazer a
certeza de que, nessa cena futurista, os serviços médicos atingirão
o ápice em qualidade, a promessa de mais automatismo na medicina só
atiça uma polêmica emergente em todo o mundo: o modelo biomédico,
sobre o qual se apóiam as rotinas atuais de clínicas e hospitais
– e também a produção de medicamentos –, atende, de fato, às
necessidades do homem no campo da saúde?
Eis
aí um paradoxo. Enquanto a intimidade microscópica do organismo é
devassada pela ciência e mais e mais recursos high-tech são
incorporados aos sistemas de diagnóstico e terapia, cresce também
a insatisfação das pessoas com os custos, o atendimento, e,
sobretudo, com a promessa fria de eficácia dos procedimentos médicos.
"Em todos os setores a sofisticação tecnológica reduziu
custos e aumentou a satisfação do cliente, exceto na
medicina", diz Flávio Corrêa Próspero, presidente da Associação
Brasileira de Qualidade de Vida. Hoje as pessoas buscam muito mais
os médicos do que no passado, gastam pequenas fortunas com exames,
estão quase que continuamente tomando algum remédio e, no final,
sempre descobrem que não se livraram de antigas complicações ou
que contraíram alguma das novas doenças que não param de engordar
a lista oficial de moléstias catalogadas – ela já soma 30 000
itens. Além disso, a tecnologia médica parece ter promovido o
distanciamento entre o terapeuta e o paciente, desumanizando a prática
profissional e abalando uma relação milenar associada ao processo
de cura. A julgar pelo novo horizonte trazido pela farmacogenômica,
esse fosso deverá ampliar-se ainda mais quando as máquinas de
prescrição invadirem os consultórios.
A
noção de que há algo errado com a medicina como a conhecemos é
consensual. Falam disso usuários e críticos dos serviços de saúde.
E também os próprios médicos, tradicionalmente uma das categorias
profissionais mais marcadas pelo corporativismo. O que varia são as
leituras da situação, que apontam causas e soluções distintas
para o problema. Outro sinalizador da crise que, aos poucos, se
instala na área da saúde é a corrida de usuários da medicina
convencional para as chamadas terapias alternativas, métodos de
cura baseados em paradigmas que se opõem ao modelo médico hegemônico,
geralmente originárias do Oriente. Na França, estima-se que 82%
dos pacientes superpõem a seus tratamentos na medicina oficial as
terapias alternativas. Nos Estados Unidos, 35% da população já
freqüenta consultórios de homeopatas, acupunturistas e outros
terapeutas que não fazem uso de drogas químicas, os chamados remédios
alopatas. Inflando a onda de contestações, há uma série de
falhas que contribuem para minar a confiança de pacientes nos ritos
médicos tradicionais.
Medicamentos
matam mais de 100 000 americanos por ano
Tomem-se,
por exemplo, alguns números dos Estados Unidos, o centro médico
mais avançado do mundo. Ali, segundo estimativa da própria Associação
Médica Americana, a cada ano 2,2 milhões de pessoas contraem doenças
e outras 106 000 morrem devido a efeitos colaterais de medicamentos,
a quarta causa de óbitos no país. Um espanto quando se considera o
rigor da FDA, a agência federal de controle de drogas. O órgão
costuma autorizar a comercialização de um novo remédio somente após
uma seqüência de estudos que envolvem milhares de pacientes ao
longo de cinco ou mais anos. (No Brasil, quinto país do mundo em
consumo de medicamentos, a Fundação Oswaldo Cruz estima em 24 000
as mortes anuais por intoxicação medicamentosa.) Nos hospitais, 98
000 americanos teriam morrido, no ano passado, vitimados por erros médicos
grosseiros. Mas Janet Corrigan, diretora de Serviços de Saúde do
Instituto de Medicina (IoM), um órgão do governo, acha que o número
foi subestimado. "O erro médico tem sido ocultado", diz
Janet. O número seria maior se computados os casos ocorridos em
casas de repouso, prontos-socorros e consultórios. Incluam-se nesse
rol de problemas as queixas contra efeitos colaterais das vacinas
– foram 108 000, no ano passado, apenas através do site do Centro
de Controle de Doenças dos Estados Unidos – e se perceberá que o
raio-x da medicina oficial está marcado por nódulos e obstruções.
Seria
loucura negar, sob o pretexto dessas distorções, a contribuição
dos serviços médicos à melhoria da qualidade de vida e à
longevidade no mundo atual. Quem, vivendo em algum lugar minimamente
civilizado, não conhece pelo menos um caso de alguém salvo da
morte ou libertado da doença graças à pronta intervenção médica?
O que os problemas em debate revelam é que essa contribuição pode
estar aquém do que se imagina, numa relação custo-benefício
bastante desfavorável para quem paga a conta – o paciente. Um
estudo da Universidade Stanford, dos Estados Unidos, com o objetivo
de aferir os fatores que levam uma pessoa a viver mais de 65 anos,
mostrou que a assistência médica é o que menos pesa: apenas 10%
num conjunto em que o estilo de vida participa com 53%, as condições
ambientais com 20% e a herança genética com 17%. É muito pouco
quando se compara esse percentual aos preços salgados e aos lucros
gordos que envolvem a assistência médica.
Cerca
de 85% dos exames solicitados têm resultados negativos
Na
última década, os serviços médico-hospitalares cresceram em
torno de 12% ao ano nos Estados Unidos. Estima-se que eles responderão
por 15% do PIB americano este ano, algo em torno de 1,3 trilhão de
dólares. (Isso dá mais de duas vezes o PIB brasileiro.) Em média,
cada cidadão americano gasta 4 800 dólares por ano com consultas médicas,
exames e internações. No Brasil, onde a assistência médica compõe
4% do PIB (algo como 24 bilhões de dólares), a Fundação Getúlio
Vargas estima que na cidade de São Paulo, o maior centro médico do
país, a indústria da saúde cresce em torno de 15% ao ano.
Os
números de Stanford apontam para problemas que, até há pouco, se
mantinham encobertos pela suposição de que a simples sofisticação
tecnológica e a variedade de drogas produzidas pela indústria
farmacêutica bastavam para derrotar tanto as velhas doenças quanto
as novas moléstias. Sabe-se agora que é enorme o desperdício na
utilização da tecnologia – um dos principais fatores dos altos
custos médicos –, bem como o abuso na prescrição de remédios e
indicação de cirurgias. "A escola americana de medicina,
modelo seguido no Brasil, é muito intervencionista", afirma a
doutora Regina Parizi, presidente do Conselho Regional de Medicina
de São Paulo. "Nesse modelo apela-se demais à cirurgia e aos
procedimentos agressivos." Compare: enquanto no Japão apenas
um em cada 100 000 habitantes é submetido a algum tipo de cirurgia
coronária por ano, nos Estados Unidos essa proporção sobe para 61
por 100 000. Não há também justificativa lógica para o fato de
51% dos partos no Estado de São Paulo acontecerem mediante operações
cesarianas.
Na
verdade, diz o psiquiatra paulistano e doutor em psicossomática
Wilhelm Kenzler, cerca de 85% dos exames solicitados pelos médicos
– o número varia de seis a 28 na consulta inicial – apresentam
resultados negativos. E mais de 90% dos diagnósticos se resumem nas
siglas NDN (nada digno de nota) ou DNV (distúrbio neurovegetativo,
ou seja, uma crise nervosa). Mesmo assim a maioria dos pacientes
volta para casa com uma receita de medicamento, cujo uso – dispensável
na maioria dos casos, como se pode perceber – pode ser o ponto de
partida de "doenças iatrogênicas", aquelas que são
causadas por tratamentos médicos inadequados.
Eis
aqui outro paradoxo. Enquanto se queixam do relacionamento frio e
impessoal com a medicina, os pacientes cada vez mais transferem para
os médicos e seu arsenal químico e tecnológico a responsabilidade
pela própria saúde e a de seus familiares. Não raro, são eles próprios
que acionam o circuito do desperdício e da dependência,
pressionando pela prescrição de exames e de drogas. Se isso não
acontece, costumam entrar em pânico ou duvidar do profissional,
como afirma o pediatra americano Wells Shoemaker. Ao atender em seu
consultório, no interior da Califórnia, um menino acometido de
resfriado comum, o médico recomendou apenas repouso e boa alimentação.
Para sua surpresa, a mãe da criança, inconformada, exclamou que não
voltaria para casa sem uma receita. "Meu filho precisa de
antibióticos", disse a mulher. "É assim que ele cura
seus resfriados." O pediatra ainda tentou explicar que antibióticos
combatem bactérias e não vírus, os causadores de resfriados, além
de serem substâncias perigosas, com muitos efeitos adversos no
organismo. Em vão. Aos berros, a mãe do menino encerrou a
consulta: "Vou procurar um doutor que saiba cuidar de crianças".
Mas,
afinal, o que está mesmo acontecendo com a medicina? Por que tantos
exageros e descontentamentos numa época em que o conhecimento das
ciências médicas, segundo o doutor em neurofisiologia Renato
Sabbatini, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em
Campinas, dobra a cada três anos e em que não existe limite para a
tecnologia que desbrava o corpo humano? "Isso ocorre devido a
três pontos críticos", diz Wilhelm. "À despersonalização,
à tecnificação e à mercantilização da medicina." Na raiz
desses males estaria o próprio conjunto de conceitos e hipóteses
que fundamentam a moderna prática médica – o modelo biomédico
moldado há três séculos.
Para
entendê-lo é necessário recuar no tempo para encontrar dois
marcos na história do conhecimento: o físico inglês Isaac Newton
e o filósofo francês René Descartes. No século XVII, Newton
concebeu o universo como um imenso mecanismo de relógio, possível
de ser compreendido a partir do estudo de suas partes. Na mesma época,
Descartes estabeleceu a visão dualista do homem, separando mente e
corpo como entidades independentes. Nos séculos seguintes, tais idéias
constituíram o cerne do que hoje é conhecido como o paradigma
cartesiano-newtoniano, base de todos os sistemas conceituais nos
diversos ramos da ciência. Na medicina, a aplicação do paradigma
mecanicista deu ênfase ao estudo isolado de órgãos e tecidos, o
que foi reforçado ainda mais pelos grandes avanços da
microbiologia no século XIX.
O
modelo biomédico consiste basicamente em três premissas: o corpo
é uma máquina, a doença é conseqüência de uma avaria em alguma
de suas peças e a tarefa do médico é consertá-la. A partir daí
é que se determinou a prática médica atual, a organização da
assistência à saúde e a formação dos recursos humanos nessa área,
caracterizando-se a ruptura com a tradição inspirada no grego Hipócrates
(século V a.C.) e seus valores humanísticos. "As raízes da
medicina hipocrática se assentavam na filosofia da natureza e seu
sistema teórico partia de uma visão holística que entendia o
homem como um ser dotado de corpo e espírito", afirma Dante
Gallian, pesquisador do Centro de História e Filosofia das Ciências
da Saúde da Universidade Federal de São Paulo. O médico clássico
era um filósofo. Conhecia a alma humana e a cultura local, andava
muito próximo de seus pacientes e atuava como conselheiro em
assuntos como o despertar da sexualidade nos adolescentes, os
problemas de relacionamento do casal e outras questões da vida
familiar. Diante das limitações terapêuticas, permanecia ao lado
do enfermo e seus familiares, ajudando-os no sofrimento e na preparação
para a morte. A figura romântica desse clínico geral foi sepultada
pela explosão das especializações no século XX, quando o
reducionismo impôs-se de vez à prática médica ocidental. O médico,
então, tornou-se um técnico, um especialista com grande
conhecimento específico e quase sempre sem noção do todo.
A
indústria farmacêutica quer faturar 400 bilhões de dólares em
2002
Note:
a implantação do modelo biomédico não emergiu do nada, mas de
uma convergência de fatores históricos e culturais que validaram,
na época, os axiomas básicos da medicina ocidental como a
conhecemos. O trabalho do químico francês Louis Pasteur, pioneiro
no estudo dos microorganismos, é talvez o pilar mais importante
desse modelo. Pasteur demonstrou a correlação entre bactérias e
doenças e atribuiu a micróbios específicos a causação de doenças
específicas. Opôs-se assim a Claude Bernard, cuja teoria, muito
difundida no século XIX, apresentava a doença como resultado de
uma perda de equilíbrio do organismo provocada por fatores externos
e internos. Bernard afirmava que os micróbios são inócuos e que o
corpo do homem é hábitat natural de bactérias, úteis à eliminação
de toxinas. Em apenas 1 mililitro de saliva humana, por exemplo,
existem 150 milhões de bactérias. Essa coexistência pacífica dos
microorganismos com o nosso corpo só seria rompida, segundo
Bernard, quando este, agredido por fatores ambientais e hábitos não
saudáveis, se desregulasse e se transformasse em um
"terreno" propício ao surgimento de doenças. Em vez de
ser a causa primária das doenças, as bactérias seriam manifestações
sintomáticas de um distúrbio fisiológico oculto. Os danos a
tecidos e órgãos, na tese de Bernard, decorreriam da reação
excessiva do organismo provocada por descontrole dos mecanismos de
defesa.
Pasteur,
que, além de pesquisador meticuloso era um polemista hábil, acabou
infundindo sua teoria, favorecido pela eclosão, na Europa, de
epidemias que lhe permitiram demonstrar o conceito de causação
específica. Desde então, o combate aos microorganismos geradores
de doenças passou a ser o foco da medicina ocidental em sua pretensão
de tornar-se uma ciência exata. No século XX, o desenvolvimento de
vacinas e medicamentos contra enfermidades infecciosas,
especialmente os antibióticos, os antidepressivos e a descoberta do
hormônio cortisona e seu poder antiinflamatório, selaram o triunfo
do modelo biomédico no controle de males devastadores. Também a
eficácia da medicina de emergência em casos de acidentes, infecções
agudas e outros imprevistos contribuiu para esse êxito. Os novos
recursos da medicina e da farmacologia passaram a ser vistos como os
grandes responsáveis pela melhoria das condições de saúde e o
aumento da expectativa de vida nos últimos 100 anos. (Em 1900 um
brasileiro vivia, em média, 37 anos; hoje vive 68, quase o dobro.)
O
brilho de tanto sucesso ofuscou por várias décadas questões como
o perigo dos efeitos colaterais dos medicamentos, a influência dos
fatores sociais, econômicos e culturais no aumento da expectativa
de vida e a contribuição poderosa dos processos psíquicos e dos hábitos
para a saúde do organismo. Mas, nos últimos tempos, pesquisas como
a da Universidade Harvard, atestando a supremacia do estilo de vida
entre os fatores de saúde e longevidade, trouxeram para o centro do
debate antigos argumentos. Um deles, apresentado pelo inglês Thomas
Mckown, em seu livro The Role of Medicine: Mirage or Nemesis (O
papel da medicina: ilusão ou castigo), ainda inédito no Brasil, é
o que atribui o enorme declínio da mortalidade, a partir do século
XVIII, ao aumento da produção de alimentos, com reflexos na nutrição
das pessoas, à melhoria das condições de higiene e saneamento e
à redução da pobreza. Segundo Thomas, as principais doenças
infecciosas já tinham atingido o seu pico e estavam em declínio
bem antes da chegada dos antibióticos ou das campanhas de imunização,
fato que demonstraria a responsabilidade modesta que a intervenção
médica teve naqueles casos. Quando a vacina contra sarampo foi
adotada nos Estados Unidos, em 1964, por exemplo, o índice de
mortes provocadas pela doença já havia declinado 95% desde 1915.
Metade
dos médicos brasileiros atua no eixo Rio-São Paulo
Seja
como for, os medicamentos passaram a ser vistos como a chave para a
cura de todos os problemas de saúde. E, como conseqüência, a
produção de remédios tornou-se um dos negócios mais lucrativos
do planeta, detalhe que veio a influenciar profundamente o ensino e
a prática da medicina. A aliança das ciências médicas com a indústria
farmacêutica, ainda hoje um dos muitos temas tabus entre os médicos,
foi notada pela primeira vez no início do século XX, quando a
Associação Médica Americana promoveu uma pesquisa sobre as
escolas de medicina. O objetivo do estudo era proporcionar uma base
científica à formação do médico. Mas havia um objetivo
paralelo: selecionar escolas que receberiam verbas vultosas de fundações
como a Rockefeller e a Carnegie, desde que atendessem a critérios
preestabelecidos. A pesquisa deu origem ao chamado Relatório
Flexner, documento que influenciou a reforma do ensino médico nos
Estados Unidos.
"O
interesse do big business não é curar, mas manter as doenças sob
controle de remédios", diz Wilhelm. Segundo o psiquiatra, que
também é professor de medicina psicossomática na Faculdade de
Medicina Santo Amaro, em São Paulo, a grande indústria farmacêutica
mobiliza bilhões de dólares para financiar escolas e centros de
pesquisa médica, além de cortejar médicos e pesquisadores com
mordomias que incluem viagens a congressos e estágios no exterior.
"O pesquisador passa a ser praticamente um colaborador do
laboratório farmacêutico e o médico, um de seus
propagandistas", afirma Wilhelm. A finalidade desses estudos
seria quase sempre validar novos produtos prestes a entrar num
mercado novo.
Há
20 anos, o mercado global de medicamentos movimentava apenas 12 bilhões
de dólares. Agora a indústria farmacêutica quer chegar a 2002
faturando 400 bilhões de dólares. É como se dois terços de toda
a riqueza produzida no Brasil no ano passado fosse empregada apenas
na compra de remédios alopáticos. Mas o que move a parceria da indústria
farmacêutica com a pesquisa e o ensino médico não é o mero
desejo de lucro, diz Serafim Branco Neto, secretário Executivo da
Abifarma, a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica.
"Perde-se muito dinheiro em pesquisas que não chegam a nada ou
desaconselham o uso de algum novo produto." Segundo Serafim, o
valor médio investido na pesquisa de uma única nova droga é de
400 milhões de dólares.
"Não
há nada errado no modelo biomédico. O paradigma da patologia
celular continua válido e é suficiente para explicar as doenças e
buscar a sua cura", diz Renato Sabbatini. "A boa medicina
é científica, apóia-se em evidências." Para Renato, muitas
das limitações da medicina convencional, entre elas os efeitos
adversos dos remédios, devem ser superadas nos próximos anos graças
aos progressos da biologia molecular. Medicamentos feitos sob
medida, a partir do conhecimento do código genético do paciente,
serão mais precisos. E as intervenções no DNA poderão tornar o
organismo humano mais resistente às condições ambientais ou
dotado de habilidades próprias de outras espécies como, por
exemplo, enxergar no escuro.
O
problema da medicina, diz Renato, está circunscrito à exploração
econômica da atividade, que transformou o médico num assalariado
mal pago e afetou a qualidade do ensino da medicina com a proliferação
desordenada de cursos – outro grande filão na área da saúde. O
Brasil possui 104 faculdades de medicina. Apenas em Ribeirão Preto,
cidade média do interior de São Paulo, existem quatro. Entre as 81
faculdades submetidas, no ano passado, ao exame de avaliação do
MEC, o provão, mais de um terço recebeu conceito ruim ou péssimo.
Lançados
em ritmo de linha de montagem no mercado urbano (há três anos
metade dos 216 000 médicos atuantes no Brasil trabalhava em São
Paulo e no Rio de Janeiro), muitos desses profissionais acabam
incorrendo em transgressões éticas que vão além da indiferença
no trato com o paciente. "O que esperar de um médico que ganha
3 reais por consulta no Sistema Único de Saúde, o SUS, se ele pode
ganhar 400 solicitando uma tomografia ou 40 000 numa cirurgia paga
pelo cliente?", pergunta Renato. Uma expressiva parcela dos médicos
tornou-se, enfim, vítima de situações estressantes, nem sempre
levadas em conta quando eles cuidam da própria saúde e da de seus
pacientes.
Chega
a ser irônico que a expectativa de vida dos profissionais da área
médica, mesmo em países desenvolvidos, como os Estados Unidos,
seja cerca de dez anos menor que a média das outras pessoas. Também
causa espanto que o alcoolismo, o abuso de drogas e o suicídio
apresente elevados índices entre os médicos. Um estudo da
Universidade da Califórnia, realizado no ano passado entre 9 600 médicos
americanos, mostrou que 20% deles usaram drogas derivadas de ópio,
prática facilitada pelo acesso rotineiro à morfina e substâncias
similares utilizadas em hospitais. O alcoolismo é um vício tão
espraiado entre médicos que foi criada uma versão especial dos
grupos de auto-ajuda Alcoólicos Anônimos só para atendê-los –
o International Doctors in Alcoholics Anonymous, IDAA. O mais grave
em tudo isso é que, com raras exceções, os médicos dependentes
de drogas continuam na ativa, às vezes atendendo em UTIs e
realizando cirurgias.
Como
entram os pacientes nessa história? Para começo de conversa, é
preciso frisar que muitos dos males apontados na medicina ocidental
têm relação causal com a postura passiva de indivíduos como eu e
você. De modo geral, os pacientes delegam aos médicos a
responsabilidade integral pelo diagnóstico da doença e pela decisão
sobre que terapia adotar. Essa tradição paternalista agrada à
maioria dos pacientes, que não está nem um pouco interessada numa
participação que lhes exija algum tipo de esforço. Afinal, por
que operar sofridas mudanças de comportamento e de hábitos
alimentares, por exemplo, se é tão mais fácil engolir uma pílula
mágica? Essa atitude, no entanto, começou a mudar. E, com isso,
alguns pilares da rotina médica ocidental passaram a se mover.
"A
voz dos pacientes precisa ser ouvida", diz Patrick Terry, líder
de um grupo de pacientes de Sharon, Massachusetts, nos Estados
Unidos, acometidos de PXE, doença que resulta da acumulação de cálcio
nos tecidos e pode cegar suas vítimas. A voz dos usuários começa
a ser ouvida em diferentes estágios da cadeia médica. Grupos
similares ao de Patrick, como o Genetic Interest Group, da
Inglaterra, e outros na Holanda, na Bélgica e nos Estados Unidos não
se mobilizam apenas por mais humanismo na medicina. Eles querem
influenciar o desenvolvimento de drogas contra doenças incuráveis,
inclusive propondo-se a adquirir patentes de novos remédios com a
intenção de barateá-los.
Iniciativas
como essa já produzem resultados lá fora. E no Brasil também. Nos
últimos anos, por exemplo, centenas de escolas de medicina dos países
desenvolvidos anunciaram ajustes em sua grade de conteúdos, com a
inclusão de disciplinas que abrangem relações humanas, dinâmica
familiar, violência doméstica e até fé e compaixão. "No
Brasil também estamos discutindo a reformulação do ensino médico",
diz Regina. "O objetivo é formar profissionais mais
generalistas e capazes de lidar com pessoas, seguindo os passos das
principais faculdades de medicina do mundo." Uma pesquisa
patrocinada pelo governo americano revelou que, para 85% dos
pacientes, o valor de um médico se deve mais à sua capacidade de
ouvir e explicar do que ao peso do seu currículo.
Estudo
indica que 20% dos médicos americanos são dependentes do ópio
É
pouco provável que o modelo de medicina hegemônico no Ocidente
venha a ser alterado em sua base nos próximos anos. Mesmo com as
limitações e distorções agora em debate, a medicina convencional
ainda é o recurso mais próximo e mais rápido para o enfrentamento
de situações extremas no campo da saúde. Mas é bom prestar atenção
ao que se passa na vizinhança do establishment médico. Neste
momento, cerca de 200 hospitais americanos já utilizam terapias não-alopáticas
para complementar o tratamento de seus pacientes. Escolas de
medicina do primeiro time, como as das universidades Harvard,
Stanford e Columbia, mantêm departamentos voltados exclusivamente
para a pesquisa de terapias alternativas e de práticas holísticas
baseadas no conhecimento oriental. Grupos de médicos brasileiros
ligados a grandes hospitais, como o Hospital do Servidor Municipal
de São Paulo, e à Universidade de São Paulo, discutem uma
abertura da medicina convencional na direção de outros sistemas de
cura. Como em qualquer crise, a da medicina moderna pode ser um
sinal de renovação.
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