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O
passado de uma cidade é sempre construído
no presente. A imaginação reanima e enriquece a memória. O tempo
quando desliza no território urbano, deixa imagens que falam de uma
outra época. Um cenário sempre restaurado ou reconstruído para
que a cidade fale do
seu passado ou de uma eternidade sonhada pelo próprio homem. A
cidade vive na memória de seus habitantes e visitantes, quando ela
provoca lembranças. Uma cidade quando desfaz de seu passado, é uma
cidade perdida no tempo, sem memória, sem vida, sem referencia,
acaba comprometendo seu futuro. “A memória é a construção do
futuro, mas que do presente,”(Murilo Mendes). E a dialética do
novo e da tradição dá um significado especial ao presente.
Da
mesma forma que as palavras às vezes sonham e falam de coisas que não
entendemos direito, a imagem urbana construída em outros tempos
fala de um passado desconhecido, datado pelo trabalho da imaginação
e da memória. Como não devanear diante de um centro histórico?
Podemos assim sonhar com a própria história. Temos este
direito de dar asas à imaginação e deixar que o devaneio fale do
passado da cidade. O restaurador é um pouco poeta quando corre atrás
das mais remotas lembranças, quando escava imagens onde repousam
fragmentos do tempo.
Não
é possível recuperar o passado e suas condições de vida.
“Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez
seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo
que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender
nossa saudade”.(Walter Benjamin). A razão criadora que possui
características da imaginação,
dá vida às imagens que encenam a infância de uma cidade. A
memória e a imaginação recuperam seus significados ou inserem
novos significados, de acordo com a contemporaneidade do tempo urbano e seu processo de transformação. O centro
histórico é um centro simbólico que alimenta a imaginação e a
recordação do passado, através de seu acervo de imagens que
mostra o olhar da historia.
Existem
várias realidades, modificadas no discurso. Uma realidade se
interpreta ou se lê através de um modelo. Os centros históricos vêm
sendo objetos da indústria do turismo que vende um modelo onde
paradoxalmente a memória é a encenação do esquecimento. O
turista é o protótipo do espectador que consome a história, à
distância, sem se envolver com ela, como imagens projetadas na tela
de um cinema. Na cidade contemporânea as imagens superam e
fantasiam a realidade, por isso é imprescindível dispor de uma
disciplina para olhar a passagem do tempo nas imagens que encenam o
antigo.
Um
centro histórico não é o lugar de se comemorar o que passou, ele
é também o lugar das sensações instantâneas do agora. Ele não
conta uma única história, mas muitas histórias. A cidade está
sempre em mudança de significado e função, seu passado é
reinventado com as novas intervenções que falam de um outro tempo.
Recordar é conferir sentido às paisagens do instante presente,
onde estão encravados tempos diferentes e distantes. Mas a cidade não
vive de recordações, um conjunto de usos e serviços é condição
básica de sua vitalidade. Atualmente, vem se falando de um retorno
ao centro, uma forma de resgate do passado, mas isso significa também
readaptá-lo às novas funções da cidade contemporânea.
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