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"Para
que a idéia da democracia nascesse, foi preciso que os homens
deixassem de acreditar em Deus: quem acredita conhecer os
pensamentos de Deus não precisa perder tempo tentando conhecer os
dos homens.
Foi o caso
da Igreja Católica medieval, que, julgando-se depositária da
revelação da vontade de Deus, tratou de estabelecer uma teocracia
em que a opinião do povão não contava. É também o caso dos
ditadores, que, por acreditarem que seus pensamentos são idênticos
aos de Deus, governam sem se importar com o que o povo pensa.
Mas, quando
os homens desconfiam que o Grande Rei punha ordem na casa havia sido
deposto, não houve alternativa: tiveram de inventar uma ordem política
mais modesta, humana, já que a divina lhes fora roubada. Assim
nasceu a idéia da democracia como contrato provisório de convivência
que os homens celebram entre si.
Polya,
matemático polonês, escreveu um delicioso livrinho sobre a arte de
resolver problemas. Logo no primeiro parágrafo, enuncia a regra básica:
"Comece pelo fim". Esse conselho parece absurdo ao senso
comum, que pensa que temos de começar pelo começo. Mas ele é
verdadeiro e serve para tudo. Por exemplo, a construção de uma
casa: antes de cavar alicerces e levantar paredes, é preciso que
ela esteja presente, na imaginação, como produto acabado. Os
arquitetos são aqueles que descrevem o fim, a casa pronta.
Assim é a
construção de uma ordem política - a Grande Casa, em que se
encontram nossas (muitas) pequenas casas. Os partidos estão para a
Grande Casa como os arquitetos estão para as nossas pequenas casas.
Ninguém
que vá construir uma casa aprova o primeiro projeto sem examinar
outros. É preciso comparar antes de aprovar. O mesmo vale para a
Grande Casa. Na idéia da democracia, os partidos são empresas de
arquitetura que apresentam projetos diferentes da Grande Casa. O que
está em jogo,a substância do contrato social a ser selado, é o
projeto da Grande Casa, o espaço político em que vamos viver.
Imagine uma
pessoa que, planejando construir uma casa e não querendo se dar ao
trabalho de analisar racionalmente os diferentes projetos, tomasse
uma decisão curiosa: pedir que os arquitetos lhe enviem
fotografias. Entrega-se, então, a um estranho método de decisão.
Em vez de examinar os projetos arquitetonicamente, faz sua escolha
com base na fotografia do arquiteto.
Claro que
qualquer pessoa em são juízo dirá que isso é doideira. O mesmo
vale para a política: o que está em jogo é o projeto da Grande
Casa, não a imagem do arquiteto. O candidato é apenas um
representante do projeto escolhido.
A
democracia, assim, é uma idéia simples, que depende de dois
pressupostos. Primeiro, que os cidadãos estejam de acordo acerca
das regras do jogo. Segundo, que eles sejam seres racionais e tomem
suas decisões tendo em vista o bem daqueles que vão morar na
Grande Casa.
Há um
fato, entretanto, que tornou esse sonho de democracia irrealizável:
não é verdade que os homens ajam racionalmente. Os eleitores não
votam com base em razões, evidências e informações. Eles votam
movidos pela sedução das "imagens": escolhem o projeto
pela "imagem" do arquiteto. A política não acontece no
campo da razão, mas no campo da estética.
Maquiavel
percebeu isso com clareza. Argumentando se, para o príncipe, o
fundamental era "ser justo" ou "parecer justo",
ele concluiu que, politicamente, o que importa é parecer ser justo.
O "parecer ser" define o campo da imagem. Os homens reagem
não à verdade, mas à imagem. Política é um jogo de sedução
amorosa. Acho que Maquiavel, se escrevesse hoje, não daria tanta
atenção ao "parecer ser justo". Justiça é uma questão
ética. Mas não estou convencido de que o "público" se
comova com imagens éticas. O eleitorado se move pela sedução da
imagem estética: Ciro versus Lula.
Só não
sabem disso os políticos liberais e os de esquerda. Educados na
tradição do Iluminismo e sem haver aprendido as lições amargas
da psicanálise, procedem como se os eleitores fossem seres
racionais, que votam após examinar alternativas e ponderar evidências.
Não se dão conta de que a clareza e a verdade dos seus argumentos
não têm força para se contrapor ao poder sedutor das imagens.
Oscar, por
exemplo: que imagem mais bonita. Todo mundo ama o Oscar, herói do
basquete, aquele jeito de meninão inocente, com um sorriso franco.
Quem não gostaria de um senador assim, que misturasse franqueza e
inocência? A imagem dele é tão familiar, tão doméstica, tão
"paizão"...
A maioria
dos votos determina o projeto da Grande Casa. Mas é fato que os
votos não são determinados pela razão dos cidadãos. Quem os
determina? Por detrás dos votos está uma força gigantesca, maior
que a dos partidos: as empresas especializadas na "produção
das imagens". Hoje, o resultado das eleições é produto da
esperteza dessas empresas, que sabem a arte de seduzir o eleitor
pela estética da imagem.
A missão
dos gênios que moram em garrafas é satisfazer a vontade dos seus
donos, sem jamais contrariá-los. Os gênios são entidades cheias
de poder e vazias de escrúpulos. As empresas produtoras de imagens,
hoje, são os gênios da política. Eles produzem aquilo a que damos
o nome de "eleição democrática". Que linda idéia, a
democracia! Pena que os gênios a tenham assassinado. Morreu, como o
Grande Rei...
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