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Os Gênios da Garrafa

 Por Rubem Alves
 

"Para que a idéia da democracia nascesse, foi preciso que os homens deixassem de acreditar em Deus: quem acredita conhecer os pensamentos de Deus não precisa perder tempo tentando conhecer os dos homens.

Foi o caso da Igreja Católica medieval, que, julgando-se depositária da revelação da vontade de Deus, tratou de estabelecer uma teocracia em que a opinião do povão não contava. É também o caso dos ditadores, que, por acreditarem que seus pensamentos são idênticos aos de Deus, governam sem se importar com o que o povo pensa.

Mas, quando os homens desconfiam que o Grande Rei punha ordem na casa havia sido deposto, não houve alternativa: tiveram de inventar uma ordem política mais modesta, humana, já que a divina lhes fora roubada. Assim nasceu a idéia da democracia como contrato provisório de convivência que os homens celebram entre si.

Polya, matemático polonês, escreveu um delicioso livrinho sobre a arte de resolver problemas. Logo no primeiro parágrafo, enuncia a regra básica: "Comece pelo fim". Esse conselho parece absurdo ao senso comum, que pensa que temos de começar pelo começo. Mas ele é verdadeiro e serve para tudo. Por exemplo, a construção de uma casa: antes de cavar alicerces e levantar paredes, é preciso que ela esteja presente, na imaginação, como produto acabado. Os arquitetos são aqueles que descrevem o fim, a casa pronta.

Assim é a construção de uma ordem política - a Grande Casa, em que se encontram nossas (muitas) pequenas casas. Os partidos estão para a Grande Casa como os arquitetos estão para as nossas pequenas casas.

Ninguém que vá construir uma casa aprova o primeiro projeto sem examinar outros. É preciso comparar antes de aprovar. O mesmo vale para a Grande Casa. Na idéia da democracia, os partidos são empresas de arquitetura que apresentam projetos diferentes da Grande Casa. O que está em jogo,a substância do contrato social a ser selado, é o projeto da Grande Casa, o espaço político em que vamos viver.

Imagine uma pessoa que, planejando construir uma casa e não querendo se dar ao trabalho de analisar racionalmente os diferentes projetos, tomasse uma decisão curiosa: pedir que os arquitetos lhe enviem fotografias. Entrega-se, então, a um estranho método de decisão. Em vez de examinar os projetos arquitetonicamente, faz sua escolha com base na fotografia do arquiteto.

Claro que qualquer pessoa em são juízo dirá que isso é doideira. O mesmo vale para a política: o que está em jogo é o projeto da Grande Casa, não a imagem do arquiteto. O candidato é apenas um representante do projeto escolhido.

A democracia, assim, é uma idéia simples, que depende de dois pressupostos. Primeiro, que os cidadãos estejam de acordo acerca das regras do jogo. Segundo, que eles sejam seres racionais e tomem suas decisões tendo em vista o bem daqueles que vão morar na Grande Casa.

Há um fato, entretanto, que tornou esse sonho de democracia irrealizável: não é verdade que os homens ajam racionalmente. Os eleitores não votam com base em razões, evidências e informações. Eles votam movidos pela sedução das "imagens": escolhem o projeto pela "imagem" do arquiteto. A política não acontece no campo da razão, mas no campo da estética.

Maquiavel percebeu isso com clareza. Argumentando se, para o príncipe, o fundamental era "ser justo" ou "parecer justo", ele concluiu que, politicamente, o que importa é parecer ser justo. O "parecer ser" define o campo da imagem. Os homens reagem não à verdade, mas à imagem. Política é um jogo de sedução amorosa. Acho que Maquiavel, se escrevesse hoje, não daria tanta atenção ao "parecer ser justo". Justiça é uma questão ética. Mas não estou convencido de que o "público" se comova com imagens éticas. O eleitorado se move pela sedução da imagem estética: Ciro versus Lula.

Só não sabem disso os políticos liberais e os de esquerda. Educados na tradição do Iluminismo e sem haver aprendido as lições amargas da psicanálise, procedem como se os eleitores fossem seres racionais, que votam após examinar alternativas e ponderar evidências. Não se dão conta de que a clareza e a verdade dos seus argumentos não têm força para se contrapor ao poder sedutor das imagens.

Oscar, por exemplo: que imagem mais bonita. Todo mundo ama o Oscar, herói do basquete, aquele jeito de meninão inocente, com um sorriso franco. Quem não gostaria de um senador assim, que misturasse franqueza e inocência? A imagem dele é tão familiar, tão doméstica, tão "paizão"...

A maioria dos votos determina o projeto da Grande Casa. Mas é fato que os votos não são determinados pela razão dos cidadãos. Quem os determina? Por detrás dos votos está uma força gigantesca, maior que a dos partidos: as empresas especializadas na "produção das imagens". Hoje, o resultado das eleições é produto da esperteza dessas empresas, que sabem a arte de seduzir o eleitor pela estética da imagem.

A missão dos gênios que moram em garrafas é satisfazer a vontade dos seus donos, sem jamais contrariá-los. Os gênios são entidades cheias de poder e vazias de escrúpulos. As empresas produtoras de imagens, hoje, são os gênios da política. Eles produzem aquilo a que damos o nome de "eleição democrática". Que linda idéia, a democracia! Pena que os gênios a tenham assassinado. Morreu, como o Grande Rei...

 

Rubem Alves

Educador, escritor, Filósofo,  psicanalista e professor emérito da Unicamp 

 

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