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Cálice no Getsêmani

 Por Benedicto Ismael Camargo Dutra
 
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta...
(Gilberto Gil e Chico Buarque)
 

Por dois milênios não se tem compreendido o exato significado do rogo de Cristo, ao Pai, no Getsêmani. Pois, como esclarece Abdruschin, Cristo não viera a Terra para ser sacrificado, mas sim, para trazer aos seres humanos a explicação da Vontade Divina, que é sempre no fundo apenas a interpretação do funcionamento de sua Criação, na qual vivem os seres humanos que a ela pertencem. E conhecer a Criação significa tudo! Pois, exatamente o desconhecimento das automáticas leis da Criação é que levou os seres humanos a construírem um mundo tão áspero e cruel, no qual o desejo de dominar e controlar forjou uma construção em bases frágeis e instáveis, que já dão mostras de exaustão, não mais suportando o peso de tantas falhas.

Interpretem como interpretarem, os estudiosos prontamente acabam chegando a essa mesma conclusão. Para Zigmunt Bauman, professor emérito de sociologia na universidade de Leeds, Reino Unido, “os humanos supérfluos tem sido depositados nas regiões vazias do Planeta, mas hoje a modernidade se tornou, como previsto, condição universal, ou quase universal da humanidade, e a produção de resíduos humanos generalizou-se em praticamente todo o globo.” (FSP, Mais n.o 614).

Para o professor se torna necessária a busca de soluções globais para problemas produzidos em nível mundial.

Outro pesquisador, o sociólogo alemão Robert Kurz, examinando a tão decantada terceirização, concluiu que o que surgiu foi uma terceirização da miséria em massa nas aglomerações urbanas, que incham monstruosamente.”...Das antigas promessas de uma terceirização progressista, sob o nome de sociedade da cultura, da assistência e do lazer, não restou nada. Inclusive o turismo foi apanhado pela crise.” Para ele a classe média social acabou derretendo.

Mas o sociólogo acrescenta: “Se a humanidade não quiser findar, ela terá de superar o reducionismo orgânico e mecânico e se relacionar de maneira humana consigo própria. Só então ela poderá se relacionar também de maneira humana com a natureza biológica e física”. (FSP, Mais n.o 613).

Nestes dois milênios depois de Cristo, tivemos praticamente quinze séculos de imobilismo nos quais as comunidades humanas não atingiram o apogeu de seu desenvolvimento. A partir do século 15 houve uma ruptura, e começaram a surgir mudanças. As comunidades se transformaram em Nações e estas em Estados Soberanos que passaram a interferir profundamente nas atividades regulamentando a vida. Três poderes se confrontam, o religioso, o do Estado burocrata, e o econômico que, crescentemente, amplia a sua influência. Por trás de tudo isso, sempre estiveram os próprios seres humanos que, ao invés de buscarem intensamente o reconhecimento e atuação conforme as leis da Criação, sempre estiveram disputando o controle das riquezas, a influencia e o poder. Assim as incompreensões permaneceram e a Missão de Cristo não foi reconhecida pelos seres humanos com exatidão.

Conforme esclarece a Mensagem do Graal, “Cristo não teria rogado no Getsêmani que o cálice do sofrimento lhe fosse desviado, se a morte na cruz devesse ser um holocausto necessário. Nunca! Cristo não teria feito isso. Durante dois milênios não se tem refletido nisso.”

O ATUAL CENÁRIO

A violência urbana se alastra pelas grandes cidades de forma assustadora, intranqüilizando os habitantes. Os poderes constituídos se vêem diante da insolvência, sem condição de saldar os débitos mais essenciais. A AIDS retoma o seu avanço, tendo sido registrados mais de cinco milhões de casos novos durante o ano de 2003. O terrorismo também se globalizou, criando um clima planetário de incertezas e insegurança de difícil combate. E o meio ambiente, o habitat humano, se encontra seriamente danificado e sobrecarregado de agentes poluidores.

As novas gerações se encontram particularmente desesperançadas. As possibilidades de emprego se concentram principalmente nos ramos de atuação que empregam grande número de pessoas com qualificação e remuneração baixa, com gestão autocrática totalitária e que se utilizam largamente das idéias de Skiner que não deram grande apreço à “noção de uma Humanidade que age por vontade própria. Assim, “embora apresente algumas vantagens no ambiente organizacional e tenha seduzido as organizações totalitárias, a ciência skinneriana sinaliza para a criação de uma sociedade composta de mortos-vivos, condicionada, sem lustro, superficialmente bem-educada, depressiva.” (Dimensões Funcionais, Sandra Regina da Rocha-Pinto, Coordenadora, Edit. FGV).

A raiva e a frustração com a economia estão em alta em todo o Planeta. Esta é uma conclusão que faz parte das “Profecias do Pai Rico”, (Edit. Campus). Para os autores, Robert Kiyosaki & Sharon Lechter, "tudo indica que o grande crash do mercado de ações se arma no horizonte, mas esse não é o problema. Todos os mercados financeiros sobem e descem. Os ciclos econômicos são parte da vida. Dizer que o mercado de ações cairá é como prever a chegada do inverno. A questão é quais serão as conseqüências do próximo crash e a intensidade da queda... A má noticia é que o próximo grande crash do mercado de ações revelará um nível de pobreza nos Estados Unidos que abalará o mundo.”

Então, como os sociólogos o descrevem, o quadro hoje é de verdadeiro caos. O falhar está em toda a parte. “Para onde quer que se olhe, há um quadro da mais desoladora confusão e de muita miséria. Inúmeras cisões e o sempre crescente ódio mutuo.”

Como entender essa situação?

“Nem empregador nem empregados têm culpa disso, nem o capital nem a sua falta, nem a igreja nem o Estado, nem as diferentes nações, mas tão-somente a sintonização errada das pessoas, individualmente, fez com que tudo chegasse a tanto!” (Mensagem do Graal, de Abdruschin, dissertação: Pai Perdoai-lhes, Pois Não Sabem o Que Fazem!)

Uma nova sintonização se torna indispensável. Sonhar com um mundo melhor em constante melhora. Desejar fazer do mundo um lugar melhor, com mais alegria e beleza, apropriado para uma existência humana condigna. Quando o ser humano reconhecer que é uma espécie diferenciada, que além do instinto e do cérebro, também é dotado de alma e intuição para agir com nobreza, colocando o raciocínio a serviço de alvos mais elevados para construir uma civilização verdadeiramente humana, teremos alcançado um estágio mais avançado, de real evolução e enobrecimento da vida. Caso contrário o ser humano se embrutecerá de forma irreversível. Viveremos num inferno autodestrutivo!

Benedicto Ismael Camargo Dutra é autor dos livros: "A trajetória espiritual da humanidade"(http://www.library.com.br/Historia/index.htm) e "Encontro com o Homem Sábio", pela Editora Marco Zero.

 

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