“As viagens pela América Latina me fizeram conhecer
a miséria, a fome, a impossibilidade de tratar das crianças por falta
de recursos, o embrutecimento causado pela injustiça e pelo
sofrimento. Vi coisas que acabaram por me parecer tão importantes
quanto o empenho em me tornar um pesquisador famoso.” (E.G., Outra
Vez, Ediouro, 2003).
Guevara era admirado por muitos jovens de sua
época, como um líder e modelo a ser seguido, pois queria trazer
libertação ao jugo que os nativos eram submetidos desde a chegada dos
conquistadores.
Em seu diário de viagem (Sá Editora), escreveu:
“mesmo hoje, quando o ódio bestial dos conquistadores pode ser visto
em cada ato por eles tomados para consolidar a conquista, e passado
tanto tempo desde que o povo inca desapareceu como potência dominante,
seus blocos de pedra ainda estão impregnados com uma força misteriosa,
intocada pela passagem do tempo. Quando as tropas espanholas saquearam
a cidade derrotada, descarregaram a sua fúria sobre os templos incas,
juntando à sua avidez pelo ouro que adornava as paredes com
representações de Inti, o deus Sol, um prazer sádico em substituir
símbolos cheios de vida e alegria de um povo triste, pelo ídolo cheio
de sofrimento de um povo alegre. Os templos dedicados a Inti foram
arrasados por completo ou tiveram as suas paredes usadas para
construir igreja de uma nova religião. A catedral da cidade foi
construída no que restou de um grande palácio, enquanto as paredes do
Templo do Sol serviram como base para a Igreja São Domingo, uma lição
e um castigo do conquistador orgulhoso.”
Em Machu Picchu, que na língua local significa,
velha montanha, ficou extremamente impressionado com a grandeza da
cultura e moral do povo Inca, era como se estivesse voltando a um
local já conhecido. Como tudo teria sido diferente se a cultura inca
não tivesse sido trocada pela do conquistador, pensava ele em sua
viagem. Então, Guevara se deixou dominar pela furiosa revolta que
brotava em seu íntimo ao se deparar, durante sua viagem, com a
exploração dos nativos, seja pelos latifundiários ou mineradoras, que
tratavam aqueles seres humanos como objetos descartáveis sem a mínima
consideração. Ele queria pegar em armas para resgatar um povo que se
perdera em meio ao misticismo, e as confusas orientações missionárias.
Contudo ele teria que perceber que esse povo
sofrido se deixou submeter à escravidão devido a sua indolência
espiritual, pois o legado deixado pelos Incas era muito superior, e
não poderia ter sido relegado ao esquecimento pelos nativos. Muitos
morreram ante a brutalidade dos conquistadores, simplesmente porque
não podiam aceitar os distorcidos conceitos trazidos pelo cristianismo
europeu. Seus espíritos ativos não se submeteram aos ensinamentos
dogmáticos que a sua pura intuição não podia reconhecer.
Segundo Roselis Von Sass, no livro A Verdade sobre
os Incas, os Incas constituíam uma estirpe de líderes. Isto já o
próprio nome expressa. Pois “Inca” significa “senhor”, isto é, uma
pessoa com consciência do poder. O poder outorgado aos Incas
originou-se de seu elevado saber espiritual, de seu amor pela Luz e
por todas as criaturas, de sua confiança, de sua alegria de trabalhar
e de sua pureza... Eles superavam os outros médicos, não por causa de
suas sensacionais operações cranianas ou por causa da cura de outras
complicadas fraturas. Não. Não por causa disso. Isso também os
egípcios fizeram e antes deles médicos de povos desconhecidos e há
muito desaparecidos. Os Incas tornaram-se famosos por causa do dom de
reconhecer e curar doenças da alma. Isso não aconteceu, naturalmente,
nos primeiros tempos. Naquela época ainda não conheciam os males
causados por doenças anímicas. Esses males eles somente conheceram
pouco a pouco, no convício com pessoas de outros povos. Com povos que
mais tarde se uniram a eles.
Guevara se foi deixando levar pelo seu lado
obscuro, sem uma busca pela Luz da Verdade que outrora brilhou sobre a
civilização Inca. Com a sua opção pela violência não trouxe melhoras
para o povo a quem ele muito poderia ter auxiliado com o seu carisma e
dedicação, caminhando ele mesmo para uma morte violenta. Talvez
tivesse sido um Inca ao tempo da conquista, ou mesmo um soldado ou
padre espanhol. Mas nesta encarnação acabou seguindo por tortuosos
caminhos.
É irônico como muitos filmes feitos na América do
Sul, mostram para os povos desenvolvidos, um povo derrotado,
embrutecido, sem preparo para a vida, desnutrido, com saúde precária,
sem que percebam que essa é a civilização que eles mesmos ajudaram a
construir do lado de cá.
O tempo é inexorável e mostra nitidamente o quanto
se perde com a presunção humana ou quanto se adquire com a verdadeira
humildade espiritual que reconhece a perfeição e grandeza das leis de
Deus na Criação. É forçoso reconhecer que os sofrimentos e misérias
foram atraídos para o mundo pelos próprios seres humanos através de
seu vivenciar, nas múltiplas existências distanciadas da busca e do
reconhecimento das
leis da
Criação, guiando-se exclusivamente pela sua presunção intelectiva
que escraviza a livre vontade, o que os afasta da segurança, da paz e
da felicidade.