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Noite na cidade... o
silêncio se espalha, deixando ouvir o murmúrio que
soa de longe, e que reflete na imensidão de pedras, chegando
aos ouvidos semi-adormecidos daqueles que procuram dormir. Latidos e
sons estranhos compõe a vida noturna da cidade, cuja
inquietação parece não ter fim. O
vento sopra e se aquieta, os latidos somem e reaparecem, e o brilho
inapagável das luzes penetra por todas as frestas.
Assim
é a noite na cidade, para aqueles que se deitam em seus
leitos e escutam, procurando dormir...
Foi-se
mais um dia... Cada criatura, tão pequena e insignificante
na multidão caótica da cidade, leva agora para a
cama as remanescências das incessantes torturas de mais um
dia de rotina, perturbando o sono e sugando as últimas
forças.
Preocupações,
aflições, angústias, tristezas,
decepções... são os únicos
sentimentos que ocupam as vidas dessas almas, que no sono, esperam
esquecê-los. No dia seguinte, como que num estalo, mal
parecem ter dormido e logo se deparam com a repetitividade opressora
à qual novamente deverão se submeter.
Chegou-se
à situação tal que agora, antes de
mais nada, à maioria só resta lutar em sentido
puramente ancestral pela subsistência e
manutenção da vida de seus corpos. Embora isso
sempre permaneça algo disfarçado nas formas
modernas do modo de vida atual, lutam sim, como nos
primórdios da civilização, unicamente
pela manutenção de seus corpos,
pois a bem dizer, algo mais que isso desconhecem... se é que
procuram de fato manter em vida os seus corpos, o que hoje parece
improvável...
O
gênero humano hoje se porta, enfim, como os animais, com a
única diferença de que além desses, os
seres humanos ainda possuem a distinção de
poderem saciar as necessidades inerentes de um cérebro. Pois
como seres de cérebro, "elevam-se" acima de todas as outras
criaturas, tornando-se capazes de ter prazeres distintos, e de
saciá-los com a inteligência e
perspicácia do raciocínio. Pois qual prazer o ser
humano ainda não foi capaz de satisfazer com o
auxílio desse poderoso cérebro, que sempre atende
quando é chamado?
Nessa
analogia do ser humano com o animal, é necessário
ainda salientar que o último cumpre totalmente e com
integral fidelidade o seu papel dentro da natureza, enfim, dentro da
Criação, o que não ocorre com o ser
humano. Este, além de não cumprir suas
obrigações, ainda atua de modo hostil, estorvando
o trabalho daquelas criaturas, seja um animal ou um ser humano bom, que
ainda desejam atuar conforme as leis estabelecidas pelo seu Criador. Na
faminta caça aos prazeres, atropelam e destroem tudo ao seu
redor, deixando apenas o germe da doença em meio
à viscosidade dos seus rastros, aonde quer que coloquem seus
pés.
E
assim, pois, levam a vida, noite após noite mal dormida,
afogando e rechaçando os sentimentos mais
incômodos na seleta coleção de prazeres
que se renova a cada dia.
. . .
Mas
voltando àquele ser desolado que à noite procura
dormir, que no dia seguinte acorda... e vê diante de si um
dia o qual ele parece já ter vivido no dia anterior...
bem... lá está ele, por enquanto, deitando-se
para o sono, ninado na sinfonia dos latidos noturnos da cidade.
Todas
as vivências do último dia ainda permanecem vivas
em sua alma, trazendo-lhe grande opressão e
desânimo. Mais do que isso, ainda surge uma estranha
inquietação interior, como que alertando e
clamando por algo. Algo que possa trazer liberdade, vida e calor a essa
alma tão apagada e enfraquecida.
Eis
que o sono não vem, a inquietação
aumenta, e essa criatura a mais na solitude começa a
refletir sobre questões da vida. Desta vez de forma mais
profunda do que costuma fazer. Na reflexão, tenta procurar o
sentido de mais essa noite de sono, e de mais um dia que se aproxima...
No
passar das horas de insônia, como que em luta
íntima, sente-se andando em círculo estreito,
permanecendo sempre no mesmo lugar. Tudo parece tão vazio,
sem sentido... sem razão de ser! O que será que
ela faz ali, juntamente com tantas outras criaturas que jazem sobre
seus leitos? O que significa levar essa vida, acordar, trabalhar,
comer, dormir, e tudo se repetindo de maneira tão banal,
dificultando-se e afundando cada dia mais?
A
própria subsistência agora já parece
ser difícil. Até os prazeres que tanto aliviavam,
vão tornando-se agora caros, retidos e reprimidos, incapazes
de serem saciados por circunstâncias várias que
antes não haviam! Onde será que
acabará tudo isso...? Não é
visível como tudo despenca sobre suas cabeças,
asfixiando e continuando a sufocá-los ainda mais, sem
qualquer piedade...?
O
espírito alerta! Algo está errado. O
espírito envia ao cérebro todos os seus rogos,
que se manifestam na consciência nas formas de tristeza,
depressão e agonia, produzindo um estado constante de
tensão e inquietação, na
esperança de despertar
essa criatura e aliviar suas dores.
Cansado,
desgastado e surrado por mais um dia que se foi, lembra-se
então de súbito, que amanhã
há mais um dia, igual ou pior a este... se não
dormir agora, o batente do dia seguinte poderá ser ainda
mais insuportável...
Ele rola na cama... e dorme.
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