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Noite em Claro - O Espírito Pede Socorro

Por Breno Castro 
 

Noite na cidade... o silêncio se espalha, deixando ouvir o murmúrio que soa de longe, e que reflete na imensidão de pedras, chegando aos ouvidos semi-adormecidos daqueles que procuram dormir. Latidos e sons estranhos compõe a vida noturna da cidade, cuja inquietação parece não ter fim. O vento sopra e se aquieta, os latidos somem e reaparecem, e o brilho inapagável das luzes penetra por todas as frestas.

Assim é a noite na cidade, para aqueles que se deitam em seus leitos e escutam, procurando dormir...

Foi-se mais um dia... Cada criatura, tão pequena e insignificante na multidão caótica da cidade, leva agora para a cama as remanescências das incessantes torturas de mais um dia de rotina, perturbando o sono e sugando as últimas forças.

Preocupações, aflições, angústias, tristezas, decepções... são os únicos sentimentos que ocupam as vidas dessas almas, que no sono, esperam esquecê-los. No dia seguinte, como que num estalo, mal parecem ter dormido e logo se deparam com a repetitividade opressora à qual novamente deverão se submeter.

Chegou-se à situação tal que agora, antes de mais nada, à maioria só resta lutar em sentido puramente ancestral pela subsistência e manutenção da vida de seus corpos. Embora isso sempre permaneça algo disfarçado nas formas modernas do modo de vida atual, lutam sim, como nos primórdios da civilização, unicamente pela manutenção de seus corpos, pois a bem dizer, algo mais que isso desconhecem... se é que procuram de fato manter em vida os seus corpos, o que hoje parece improvável...

O gênero humano hoje se porta, enfim, como os animais, com a única diferença de que além desses, os seres humanos ainda possuem a distinção de poderem saciar as necessidades inerentes de um cérebro. Pois como seres de cérebro, "elevam-se" acima de todas as outras criaturas, tornando-se capazes de ter prazeres distintos, e de saciá-los com a inteligência e perspicácia do raciocínio. Pois qual prazer o ser humano ainda não foi capaz de satisfazer com o auxílio desse poderoso cérebro, que sempre atende quando é chamado?

Nessa analogia do ser humano com o animal, é necessário ainda salientar que o último cumpre totalmente e com integral fidelidade o seu papel dentro da natureza, enfim, dentro da Criação, o que não ocorre com o ser humano. Este, além de não cumprir suas obrigações, ainda atua de modo hostil, estorvando o trabalho daquelas criaturas, seja um animal ou um ser humano bom, que ainda desejam atuar conforme as leis estabelecidas pelo seu Criador. Na faminta caça aos prazeres, atropelam e destroem tudo ao seu redor, deixando apenas o germe da doença em meio à viscosidade dos seus rastros, aonde quer que coloquem seus pés.

E assim, pois, levam a vida, noite após noite mal dormida, afogando e rechaçando os sentimentos mais incômodos na seleta coleção de prazeres que se renova a cada dia.

     . . .

Mas voltando àquele ser desolado que à noite procura dormir, que no dia seguinte acorda... e vê diante de si um dia o qual ele parece já ter vivido no dia anterior... bem... lá está ele, por enquanto, deitando-se para o sono, ninado na sinfonia dos latidos noturnos da cidade.

Todas as vivências do último dia ainda permanecem vivas em sua alma, trazendo-lhe grande opressão e desânimo. Mais do que isso, ainda surge uma estranha inquietação interior, como que alertando e clamando por algo. Algo que possa trazer liberdade, vida e calor a essa alma tão apagada e enfraquecida.

Eis que o sono não vem, a inquietação aumenta, e essa criatura a mais na solitude começa a refletir sobre questões da vida. Desta vez de forma mais profunda do que costuma fazer. Na reflexão, tenta procurar o sentido de mais essa noite de sono, e de mais um dia que se aproxima...

No passar das horas de insônia, como que em luta íntima, sente-se andando em círculo estreito, permanecendo sempre no mesmo lugar. Tudo parece tão vazio, sem sentido... sem razão de ser! O que será que ela faz ali, juntamente com tantas outras criaturas que jazem sobre seus leitos? O que significa levar essa vida, acordar, trabalhar, comer, dormir, e tudo se repetindo de maneira tão banal, dificultando-se e afundando cada dia mais?

A própria subsistência agora já parece ser difícil. Até os prazeres que tanto aliviavam, vão tornando-se agora caros, retidos e reprimidos, incapazes de serem saciados por circunstâncias várias que antes não haviam! Onde será que acabará tudo isso...? Não é visível como tudo despenca sobre suas cabeças, asfixiando e continuando a sufocá-los ainda mais, sem qualquer piedade...?

O espírito alerta! Algo está errado. O espírito envia ao cérebro todos os seus rogos, que se manifestam na consciência nas formas de tristeza, depressão e agonia, produzindo um estado constante de tensão e inquietação, na esperança de despertar essa criatura e aliviar suas dores.

Cansado, desgastado e surrado por mais um dia que se foi, lembra-se então de súbito, que amanhã há mais um dia, igual ou pior a este... se não dormir agora, o batente do dia seguinte poderá ser ainda mais insuportável...

     Ele rola na cama... e dorme.


 

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