Que bom podermos
enquadrar os membros da espécie humana em grupos previamente
caracterizados e descritos, identificar em nosso colega ou vizinho a
pertença a certa tribo, perceber que podemos lhe aplicar um dos tantos
rótulos que fabricamos. Fácil, simples. Tranqüilizador. Reduzimos a
complexidade do outro e nos sentimos mais confortáveis, seguros. Se
quisermos ser gentis com os demais seres humanos e facilitar suas
vidas, podemos por livre iniciativa também aplicar a nós mesmos
rótulos pré-determinados, esclarecer aos que estão à nossa volta a que
grupo pertencemos.
Fazem sucesso novas rotulagens, novas roupagens que
nos vistam perante os demais. Os criadores de tendências encontram em
nossa sociedade campo fértil onde semear novos termos e modismos, que
germinam e disseminam-se de forma espantosa. Afinal, com facilidade
enquadramos os demais em um rótulo qualquer, mas não queremos ser
enquadrados de forma arbitrária. Queremos ser identificados com
aqueles que admiramos, possuidores de características que consideramos
atraentes e/ou atuais.
Já estou bem informada da nova tendência
comportamental destinada ao público masculino. Não, ser metrossexual
não é a coisa mais bacana do mundo, ficou em 2004. Estamos em 2005,
legal agora é ser tecnossexual, entendendo-se por esse “termo
revolucionário” (como definiu um certo site) o homem que “continua
carregando o lado feminino aflorado na era da metrossexualidade, mas
que dá uma especial relevância aos quebra-galhos da avançada
tecnologia que utiliza diariamente”, o que seu criador R. Montalvo
definiu como “um ser narcisista e urbano, fascinado pela informática,
com um alto nível de vida” (ainda conforme o tal site).
Para fazer par a esse homem - que parece viver sua
vida mais em função da aparelhagem tecnológica recém-adquirida do que
a usando de forma racional para o seu proveito e o dos demais -,
apresenta-se a sua versão feminina, a tecnodiva, a mulher que com
naturalidade maneja seus utensílios de última geração, monitora os
filhos pelo seu mais novo celular, observa seu rebento brincar na
creche através do laptop.
Alguma atenção e esforço impõem-se para
demonstrarmos que estamos antenados com o que há de mais atual em
termos de moda e comportamento, ou para sermos enquadramos no rótulo
que desejamos. Mas o trabalho de absorção de um determinado
modo-de-ser pode ser facilitado por sites como o criado por Montalvo,
que fornece dicas variadas àqueles que desejam ser identificados, sem
hesitação, com o grupo dos narcisistas, consumistas e amantes da
tecnologia.
Sim, hoje esses adjetivos são vistos por muitos
como algo bastante positivo. Manter relações mais profundas com
máquinas do que com nossos semelhantes também. O grau de absorção que
tendências desse tipo encontram em nosso meio é considerável, e raro o
questionamento a elas dirigido. Os meios de comunicação que transmitem
os novos rótulos e modismos de forma irresponsavelmente elogiosa ou
mesmo neutra prestam à sociedade um desserviço. Contribuem para
propagar a futilidade extrema, a valorização desmesurada do eu.
Esperemos que nossos modismos e valores duvidosos sirvam apenas para
alimentar o riso das gerações futuras.
Letícia de Campos Ludwig
Doutoranda em
Sistemas Jurídicos e Político-Sociais Comparados na Università degli
Studi di Lecce/Itália. Pesquisadora-Bolsista com apoio do Programa de
Bolsas de Alto Nível da União Européia para a América Latina –
Programa ALBAN, bolsa n. E04D046897BR - E-mail: lcludwig@terra.com.br