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Peixinhos do Mar

Por Guilherme Pompo 
 

Imaginemos vários peixinhos preguiçosos, que desenvolveram o pendor para o tagarelar, boiando, vaidosos e distraídos, sobre as águas marinhas, próximos a uma praia qualquer. De súbito surge uma onda, tão incomum quanto inesperada, ameaçadora e incontestável, insinuando levá-los inevitavelmente em jacarezinho, célere e fatalmente ao encontro da escaldante areia. Nesse ínterim, um deles - justamente o mais insignificante e desprezado por todos, por se manter sempre à distância e vigilante, não se interessando por assuntos vulgares e hábitos pouco saudáveis - interrompe sua conversação inútil e superficial bradando: - Gente, estamos sendo levados, e o naufrágio é inevitável!

Todos percebem, de pronto, a situação em que se encontram, e tentam, a contragosto e revoltados, encontrar uma saída para aquela conjuntura incômoda e - em seu pensar arrogante, limitado, egocentrista e atrofiado pela má utilização - também injusta.Raciocinam, examinam, confabulam, conjeturam, rezam, imploram... raciocinam de novo... e morrem. Sem se darem conta de que eles, pessoal e exclusivamente, foram os causadores desta reação da natureza.
  
Enquanto são levados, numa fração de segundos, ainda se lembram de um outro alerta, mal-interpretado e covardemente analisado há séculos, tábua de salvação desprezada por suas insensibilidade grotesca; e agora, no último instante, minutos antes da vaga surgir, outro alerta, outra vez por um peixinho inexpressivo e absolutamente convicto.

Não diferentemente ocorre com os habitantes deste diminuto planeta azul.

Bastava que tivessem admitido sua falha e voltado a co-participar da indizivelmente rica, bela e produtiva vida nas profundezas oceânicas; quer dizer, movimentassem por si próprios, distanciando-se da praia, vencendo seu comodismo, despertando de seu sono embriagador, nadando um pouco mais pro fundo, para onde não pudessem ser alcançados pelo acontecimento catastrófico.

 


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