|
Imaginemos vários peixinhos
preguiçosos, que desenvolveram o pendor para o tagarelar,
boiando, vaidosos e distraídos, sobre as águas
marinhas, próximos a uma praia qualquer. De
súbito surge uma onda, tão incomum quanto
inesperada, ameaçadora e incontestável,
insinuando levá-los inevitavelmente em jacarezinho,
célere e fatalmente ao encontro da escaldante areia. Nesse
ínterim, um deles - justamente o mais insignificante e
desprezado por todos, por se manter sempre à
distância e vigilante, não se interessando por
assuntos vulgares e hábitos pouco saudáveis -
interrompe sua conversação inútil e
superficial bradando: - Gente, estamos sendo levados, e o
naufrágio é inevitável!
Todos percebem, de
pronto, a situação em que se encontram, e tentam,
a contragosto e revoltados, encontrar uma saída para aquela
conjuntura incômoda e - em seu pensar arrogante, limitado,
egocentrista e atrofiado pela má
utilização - também
injusta.Raciocinam, examinam, confabulam, conjeturam, rezam,
imploram... raciocinam de novo... e morrem. Sem se darem conta de que
eles, pessoal e exclusivamente, foram os causadores desta
reação da natureza.
Enquanto são levados, numa fração de
segundos, ainda se lembram de um outro alerta, mal-interpretado e
covardemente analisado há séculos,
tábua de salvação desprezada por suas
insensibilidade grotesca; e agora, no último instante,
minutos antes da vaga surgir, outro alerta, outra vez por um peixinho
inexpressivo e absolutamente convicto.
Não diferentemente ocorre com os habitantes deste diminuto
planeta azul.
Bastava que tivessem admitido sua falha e voltado a co-participar da
indizivelmente rica, bela e produtiva vida nas profundezas
oceânicas; quer dizer, movimentassem por si
próprios, distanciando-se da praia, vencendo seu comodismo,
despertando de seu sono embriagador, nadando um pouco mais pro fundo,
para onde não pudessem ser alcançados pelo
acontecimento catastrófico.
|