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Texto
escrito em 1999.
"O
desconhecimento de uma lei não é uma
justificativa válida para se descumpri-la."
Este
é um princípio básico da
ciência do direito, porém impossível de
ser observado para as leis existentes, tal o seu número e
complexidade. Uma pessoa que quisesse, realmente, conhecer toda a gama
de leis a que está sujeita no decurso de sua vida, teria de
gastá-la inteiramente no estudo aprofundado das
inúmeras legislações em vigor. E
é bastante provável que não atingisse
o seu objetivo.
Mas
o princípio permanece válido para certas leis da
natureza, a que o ser humano igualmente está sujeito durante
a sua passagem pela Terra, já que ele é
também uma espécie dentro dela, como tantas
outras. O princípio é válido porque
contrariamente às dos homens, essas leis naturais
são muito simples e claras. Ninguém pode
desobedecê-las sob a alegação de
ignorância, pois basta um mínimo
esforço de observação para se
reconhecê-las.
Uma
dessas leis básicas é a que dispõe
sobre o equilíbrio. Observamos nitidamente seus efeitos nos
locais onde a influência humana ainda não chegou.
Um ecossistema ainda não corrompido pela
ação humana desagregadora sempre
estará em equilíbrio. Jamais
apresentará, por exemplo, uma disparidade acentuada entre o
número de espécies que o compõem.
Nunca se observará um dos integrantes tentar destruir o
ecossistema, visando angariar vantagens imediatas para si.
Não haverá lá, tampouco, alguma
espécie desprovida do necessário para sua
sobrevivência, tendo de experimentar "penúrias
materiais". Os seres que pertencem ao ecossistema dão
de alguma forma algo para o todo, recebendo em
contrapartida o necessário para sua subsistência.
Equilíbrio contínuo entre o dar e o receber.
Mesmo
as espécies do reino vegetal obedecem automaticamente essa
lei do equilíbrio. Plantas e árvores recebem
da natureza os nutrientes do solo e dão
à ela flores e frutos. Utilizam o
gás carbônico da atmosfera e devolvem
oxigênio.
Já
a espécie humana se comporta de maneira diferente.
Justamente ela, que com sua organização social
deveria constituir um exemplo vivo de obediência
incondicional à lei do equilíbrio, desprezou-a
acintosamente, na mais leviana autopresunção.
Devido
à sua constituição espiritual, essa
espécie ocupa uma função especial
dentro da natureza. Sua missão consiste em
elevá-la e enobrecê-la, aperfeiçoando
na matéria o modo de cumprimento das leis vigentes. Assim
estava previsto.
No
entanto, essa expectativa não se confirmou. Todas as outras
espécies continuaram obedecendo a seu modo, instintivamente,
as leis naturais. Mas o ser humano, o elevado ente espiritual que
deveria zelar pela natureza, não deu nenhuma
importância a essas leis básicas. Leis que
vigoravam antes do seu aparecimento na Terra.
Colocou-se presunçosamente acima delas, como se
não lhe dissessem respeito. Em sua inconcebível
arrogância arvorou-se senhor da
criação, enquanto nem cumpria seus deveres de
simples integrante dentro dela.
Por
isso agora ele assiste, entre incrédulo e perplexo, o
desmoronar inevitável de toda a sua obra falsa, erigida
descuidadamente sobre um solo pouco firme.
Toda
a obra humana foi erguida, por ignorância e teimosia, sobre
um solo arenoso, impróprio para se edificar qualquer
empreendimento. O ser humano não
observou, principalmente, a fundamental lei do equilíbrio,
que se constitui a base, o solo firme que suporta toda a
edificação. De nada adianta se uma
construção é muito bem planejada, se
são utilizados os materiais mais resistentes, se para tanto
empregam-se os melhores engenheiros e arquitetos. Erigida sobre a
areia, ela terá de ruir cedo ou tarde.
E a
ciência econômica é uma das muitas obras
engendradas pelo intelecto humano completamente dissociadas desse
princípio básico do equilíbrio.
Assistimos
hoje na maioria dos países a um esforço
frenético, quase desesperado, dos mais conceituados
especialistas procurando controlar os múltiplos indicadores
econômicos. Com admirável empenho
(reconheçamos) eles tentam fazer funcionar mais ou menos bem
a absurdamente complexa e instável máquina
econômica que inventaram, efetuando ajustes
freqüentes nos vários instrumentos de controle
à disposição. Com precários
resultados porém.
Os
números que traduzem o imenso descalabro em que
está mergulhada a economia mundial neste fim de
século parecem irreais de tão gigantescos, e
mesmo assim continuam a crescer, como se tivessem vida
própria. Por toda a parte aumenta a disparidade entre
produção e consumo, entre trabalho e
remuneração, entre dívidas
contraídas e benefícios gerados. Macro e
microeconomia se fundem num megacaos assustador, onde o
desequilíbrio dá a tônica em todos os
setores. (*)
E
em meio a toda essa balbúrdia sobressaem os ilustres
economistas, que digladiando não muito cavalheirescamente
entre si, procuram cada qual impor sua revolucionária e
exclusiva solução salvadora.
Diariamente
vemos desfilar na imprensa os mais contraditórios e
contundentes esclarecimentos sobre as causas e efeitos de
desvalorização cambial, controle
inflacionário, déficit público, crise
bancária, inadimplência, capital especulativo,
flutuação de juros, ações
sobrevalorizadas, desemprego crescente,
concentração de renda, etc, etc.
Toda
essa confusão poderia ser evitada se, desde a base, fosse
observado simplesmente o necessário equilíbrio
entre o dar e o receber.
Na
verdade, as pessoas já vivem numa permuta
contínua de valores, sem contudo dar a devida
importância a isso. O seu maior erro aí -
imperdoável - , foi justamente negligenciar o
indispensável equilíbrio neste processo natural
de troca.
Com
o seu trabalho elas dão algo ao mundo em
que vivem, à Terra, e por isso recebem
dela o necessário para a sua vida terrena. Em primeira linha
alimento, vestuário e moradia. Em
seqüência natural outros bens complementares, sempre
segundo sua própria contribuição. O
dinheiro nada mais é do que um instrumento, um meio para
facilitar o fluxo entre o dar e o receber no nosso mundo civilizado.
Fluxo este que todos os implicados têm o dever de manter em
absoluta eqüidade, cuidando para que os pratos da
balança permaneçam rigorosamente nivelados.
Assim
o quadro geral de uma atuação coletiva
harmônica. Simples demais? Sim, como tudo aliás
que possui real valor, que, portanto, ainda não foi
infectado pelas diretrizes intrincadas do limitado intelecto humano.
Sucede
porém que como em muitas outras coisas o ser humano resolveu
"aperfeiçoar" também a lei natural do
equilíbrio. Na sua estreiteza de compreensão,
fruto de sua irrefreável e também já
indisfarçável decadência espiritual,
ele imaginou poder levar uma vida mais bela e feliz se abaixasse um dos
pratos da balança em seu favor. Ele quis receber cada vez
mais, dando cada vez menos. E com o passar dos séculos esse
desequilíbrio cresceu e cresceu, até chegar ao
ponto em que nos encontramos hoje, onde o dinheiro passou a ser um fim
em si mesmo, ao invés de um mero instrumento terrenal para
efetivação do dar e receber.
A
partir daí, o que restava de dignidade e respeito ao
próximo dessa criatura cega de cobiça
extinguiu-se de vez. Passou a querer levar vantagem em tudo para
angariar mais dinheiro, pouco importando se para tanto tivesse de
infligir danos ao seu semelhante.
Para
obter mais dinheiro empregados enganam seus patrões,
patrões exploram seus empregados, estelionatários
estudam novos golpes, especuladores lançam boatos nas
bolsas, fábricas se juntam em cartéis, bancos se
transformam em casas de agiotagem, políticos vendem seus
votos, madeireiras arrasam florestas, nações
brigam entre si por interesses comerciais. E todos contraem
dívidas que não podem saldar. Engana-se,
rouba-se, mata-se, destrói-se e guerreia-se por dinheiro.
A
gananciosa humanidade torceu o mais que pôde o preceito dado
a ela de conservar o equilíbrio em tudo, abaixou ao
máximo o prato da balança a seu favor, na
ilusão de conquistar com isso a felicidade terrena.
O
que ela não imaginava, porém, é que ao
contrário das leis humanas, as da natureza não
podem ser desobedecidas impunemente. A humanidade conseguiu, sim, fazer
descer o prato da balança durante um certo tempo, mas agora
ele retorna violentamente à sua
posição original, atirando para longe tudo o que
estava acumulado em seu interior.
No
que tange à economia, isso se evidencia como uma
tragédia de proporções
apocalípticas, sem paralelo na história humana.
Centenas
de milhões de pessoas vivem hoje na mais absoluta
miséria, sem qualquer perspectiva de melhoria de suas
condições materiais. Os que têm um
emprego e ainda ganham o suficiente para viver condignamente formam uma
única e extensa legião de descontentes,
firmemente convencidos de que a vida lhes foi injusta ao denegar-lhes a
riqueza material. Ao invés de enobrecer o mundo com valores
espirituais e terrenos, eles só fazem crescer a
má vontade, a inveja e a desconfiança.
Já os que possuem muitos recursos, em sua maior parte os
direcionam quase que exclusivamente para deleite próprio,
sem a menor preocupação de soerguer e conservar o
bem comum.
A
cada ano, a cada mês, a cada dia vemos avolumar-se o
descalabro econômico mundial, gerando angústia,
desesperança e… insegurança. O
pedestal do ídolo dinheiro, erguido por tantas
mãos prestimosas até uma altura que obscurece
totalmente qualquer vislumbre de vida espiritual, está se
desfazendo aos pedaços sobre uma humanidade amedrontada e
estarrecida.
A
instabilidade econômica mundial traz convulsão
social, crise de governabilidade, medo e, sobretudo, insegurança
generalizada.
Esses
os frutos que temos de colher agora, pela não
observância de uma lei simples e todavia tão
essencial, que sozinha poderia garantir total harmonia de vida neste
nosso conturbado planeta.
(*)
Alguns poucos exemplos isolados:
• Cerca de 60% da
população mundial vive com uma renda de
até dois dólares por dia; 1,3 bilhão
de pessoas sobrevivem com até um dólar por dia.
• A dívida
pública americana cresceu 4.145 vezes do início
do século até 1995. No final daquele ano cada
bebê americano veio ao mundo devendo 18.930
dólares (dívida pública per capita).
• Em fins de 1996 a
Organização Internacional do Trabalho estimava
haver um bilhão de pessoas desempregadas ou subempregadas em
todo o mundo.
• O volume de recursos
disponíveis na ciranda financeira mundial é
várias vezes superior ao que se poderia adquirir com eles.
Giram hoje no mercado de ações e de derivativos
cerca de 67 trilhões de dólares. Todo o ouro
existente no mundo não soma 6 trilhões de
dólares.
• A renda conjunta de 358
multimilionários é superior aos rendimentos
somados de 2,3 bilhões de pessoas (45% da
população mundial).
• Nos últimos quinze anos
1,6 bilhão de pessoas viram sua renda diminuir.
• Desde 1980 noventa
países sofreram declínio econômico.
• Há atualmente
131 países às voltas com crises profundas em seus
sistemas bancários.
• Categorias profissionais
que são verdadeiros sustentáculos à
integridade de uma nação, como as dos
professores, médicos e pesquisadores são
parcamente remuneradas e mal reconhecidas, enquanto que boxeadores,
pilotos de corrida, jogadores de basquete ganham milhões de
dólares para contribuir com nada para coisa alguma e
são elevados à categoria de heróis.
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