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 Economia
Lavoura Arcaica                                              próximo artigo

 Por Aloízio Mercadante
 
2002
 

"A Farm Bill é mais um exemplo da hipocrisia comercial dos países desenvolvidos."

O Congresso dos EUA aprovou e o presidente Bush acaba de sancionar a Farm Bill, a lei que concede subsídio gigante à agricultura. O novo aporte protecionista dará, nos próximos dez anos, US$ 190 bilhões aos agricultores norte-americanos. Para o Brasil, esta lei trará prejuízos de US$ 2,4 bilhões anuais, principalmente para a soja, segundo estima a Confederação Nacional da Agricultura.

A nova medida é mais um exemplo da hipocrisia que caracteriza as posições do países desenvolvidos nos debates sobre o comércio internacional. O caso dos Estados Unidos é exemplar. No discurso, como fez na última reunião da OMC em Doha, o governo norte-americano prega a liberalização do comércio. Na prática, isso só vale para os produtos em que eles são mais competitivos. Quando não é este o caso, o governo norte-americano substitui a retórica liberalizante por medidas protecionistas, diretamente, como fez com o aço, ou indiretamente, através de subsídios indiretos ou do recurso ao seu amplo arsenal de barreiras não tarifárias.

Todos nossos produtos de exportação para os EUA que são importantes estão na lista dos 297 itens excluídos do TPA.

A idéia de que a liberdade de comércio produz desenvolvimento tem sido usada apologeticamente desde que, há quase 200 anos, David Ricardo, um economista inglês, propôs que cada país se especializasse na produção daquilo para o qual tivesse vantagens comparativas - ou seja, custos menores. A proposta legitimou teoricamente o esquema de divisão internacional do trabalho oriundo da revolução industrial, que conduziu à especialização primário-exportadora dos países latino-americanos.

As desvantagens deste esquema ficaram claras com o aumento contínuo das assimetrias de renda e produtividade entre os países que de alguma maneira puderam inserir-se naquele processo originário de desenvolvimento industrial e as economias da região. Estas só tardiamente, já no século XX, e remando contra a corrente do pensamento econômico dominante iriam avançar, a partir de medidas protecionistas e da substituição de importações, na diversificação da sua estrutura produtiva e, excepcionalmente, como no caso brasileiro, chegar a constituir um parque industrial relativamente complexo.

A onda neoliberal dos anos 80/90 recolocou, envolvida em uma aura de modernidade, a velha questão da liberalização comercial. Praticamente todos os países da região adotaram políticas agressivas de abertura comercial. Os resultados foram impressionantes. Segundo dados do último relatório da Unctad sobre comércio e desenvolvimento, a América Latina não só continua sendo basicamente uma exportadora de "commodities" como dos 20 produtos com mercados mundiais mais dinâmicos somente em dois deles tem uma participação relevante. E excetuando o México, cuja incorporação ao Nafta requer uma consideração à parte, aumentou neste período o déficit comercial da região com os Estados Unidos.

Mas isto não é tudo. Quando os países em desenvolvimento, mesmo produzindo produtos primários e semi-elaborados, conseguem ser relativamente mais produtivos, entram em cena as restrições e medidas protecionistas, como a Farm Bill.

Esta mesma lógica está presente no projeto do governo norte-americano de criação da Alca. Nele a retórica liberalizante continua sendo um instrumento para assegurar aos Estados Unidos a parte de leão na distribuição dos benefícios do comércio hemisférico. Veja-se, por exemplo, o caso das barreiras tarifárias. Em termos globais, a tarifa média dos Estados Unidos é baixa, da ordem de 3%, bastante inferior à brasileira, que atinge 14%. No entanto, quando a análise se refere aos 15 principais produtos das pautas bilaterais de importação e exportação, a situação muda: a tarifa média norte-americana sobe para 46% e a nossa cai para 13,5% !

Então uma redução tarifária favoreceria o Brasil? Não. Todos os nossos produtos de exportação para os Estados Unidos que são importantes estão na lista dos 297 itens cuja liberalização comercial foi excluída do mecanismo de negociação acelerada (o Trade Promotion Authorithy - TPA), recentemente aprovado pelo Congresso norte-americano, ficando sujeitos a procedimentos especiais e às normas de defesa comercial vigentes naquele país.

A análise anterior não significa desconsiderar a importância da liberalização comercial, que pode ser um instrumento importante para a expansão dos fluxos de comércio internacional. Tampouco significa que subvalorizamos os efeitos positivos da expansão desses fluxos para o desenvolvimento, mesmo no caso de economias continentais, como a brasileira, cujo crescimento não repousa exclusiva ou primordialmente no mercado externo. O problema é outro, são as condições em que estes processos se materializam.

Nessa perspectiva, a questão central não é a liberalização comercial mas sim a distribuição dos benefícios da expansão do comércio por ela induzida. Para que essa distribuição seja eqüitativa, é essencial que a liberdade de comércio promova, tendencialmente, a homogeneização das economias participantes e não o aumento da brecha de renda e produtividade entre elas. Isto supõe certos desenvolvimentos prévios ao processo de liberalização, que equalizem as condições de concorrência, e a criação de mecanismos compensatórios das assimetrias existentes em matéria de capacidade econômica e produtividade sistêmica.

As políticas comerciais adotadas pelos Estados Unidos e seu projeto de formação da Alca, nos termos em que estão colocados, especialmente a partir da administração Bush, vão na contramão destes propósitos. Não mudam nada do que historicamente têm sido a essência de suas relações comerciais com a região. Nesse sentido, menos do que a formação de uma parceria orientada ao desenvolvimento, representam o aprofundamento de um padrão de dominação e exploração das economias latino-americanas que tende a perpetuar sua condição de periferia subdesenvolvida.

Fonte:Jornal Valor Econômico - 24 /05/ 2002


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