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"Desde muito cedo já era preparado para as funções de Estado. Possuía uma alma solitária, daquelas capazes de fascinar qualquer pessoa. "

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
"Aos catorze anos, D. Pedro II falava quatro idiomas e lia tudo que podia. Devorava livros, na ânsia de entendê-los."

 História
O Último Imperador

 Por Gilmar Moreira Gonçalves
 

No processo de revisão de nossa História não podemos deixar de falar do homem que por quase cinqüenta anos governou o Brasil. Estudar a vida de D. Pedro II é conhecer quase todos os acontecimentos do século XIX, não só no Brasil como em todo o mundo. Sua fama correu o mundo como chefe de uma nação ou como um catedrático, capaz de pintar quadros, de fazer trabalhos de engenharia.

Entre o "monarca europeu" e o "cacique brasileiro", aquele que viria a ser D. Pedro II é no princípio um pobre menino rico. Nascera às duas horas e meia da madrugada do dia 2 de dezembro de 1825. Sétimo filho de D. Pedro I e de D. Leopoldina. Corria em suas veias o sangue azul dos Habsburgos, dos Bourbons e dos Braganças. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, recebera os nomes dos mais católicos reis do Ocidente.

Mais Habsburgo que Bragança-Bourbon, pouco se parecia com o pai. Pertencia à estirpe de D. Leopoldina pelo largo queixo austríaco, que lembrava Filipe IV, de Velásquez, os olhos azuis, a estatura acima da normal, que, na mocidade, o assemelharia – com a fina barba loura, destinada a atenuar o prognatismo – a um arquiduque de Viena.

O pobre menino rico

A mãe morreu quando ele tinha 1 ano e o pai voltou para Portugal quando tinha 5. Viveu “abandonado” junto com suas irmãs Januária, Paula Mariana e Francisca no Palácio de São Cristóvão, entre aias, padres e professores que lhe inculcaram o gosto pela literatura, pelas línguas e pelas ciências.

Em 7 de abril de 1831, com a abdicação do pai, foi aclamado segundo imperador do Brasil, aos seis anos de idade. José Bonifácio de Andrada e Silva, tutor do menino, apresentou-o ao povo de uma janela do Paço da Cidade. Em 1833 a assembléia geral do império destituiu o patriarca e nomeou em seu lugar Manuel Inácio de Andrade Souto Maior, marquês de Itanhaém.

Em 1833, morria Paula Mariana, antes de completar 10 anos de idade. Januária, através de uma carta, relatava o acontecimento ao pai: “Amado papai. Apesar das nossas constantes súplicas aos céus, a nossa querida irmã Paula Mariana partiu. Não encontramos consolo. Nossa irmã tão amada não está mais conosco. Além disso, Pedrinho adoeceu seriamente. Chegamos a pensar que ele pegara a mesma febre de Paula Mariana, mas, graças aos céus, ele melhorou e já está sentado em sua sala de estudos. Para expressar nossa gratidão, nós, mana Chica e eu, sua filha Januária, ficaremos sem comer açúcar até o aniversário de Pedro, dia 2 de dezembro. Amado papai, estamos desesperados e em grande desalento. O senhor nos faz muita falta e também sentimos muita saudade de nossa irmã Maria da Glória e de todos que estão com o senhor em Lisboa. Com a promessa de lhe sermos sempre filhos obedientes e amorosos, Januária, Francisca e Pedro.”[1]

A liberdade, o jovem imperador só a conheceu como um direito dos outros. Desde muito cedo já era preparado para as funções de Estado. Possuía uma alma solitária, daquelas capazes de fascinar qualquer pessoa.

Levantava-se às sete horas. O almoço, às oito horas, tinha a rigorosa fiscalização do médico. Logo após encontrava as irmãs, ficando em sua companhia por uma hora. Estudava das nove às 11:30. Ficava com uma hora e meia para esperar o jantar. Às catorze horas, jantava, acompanhado do médico, do camarista e da camareira-mor que, segundo o regulamento, podiam conversar sobre objetos científicos ou de beneficência. História natural, a sorte dos deserdados, pássaros e borboletas, história sagrada, esses eram os temas preferidos pelos encarregados de formar o futuro governante do país.

À rainha Maria II de Portugal, sua irmã, D. Pedro escrevia relatando um pouco de sua rotina, em 8 de maio de 1839: “Querida e muito amada irmã. Aproveitamos a viagem a Paris que faz o Sr. Antônio Carlos de Andrada, irmão do nosso Tutor, para dar-lhes notícias. Há muito tempo estamos privados das suas, assim como de nossa querida mamãe (D. Amélia). Aqui esforçamo-nos em seguir o seu exemplo: Escrita, Aritmética, Geografia, Desenho, Francês, Inglês, Música e Dança dividem os nossos momentos; fazemos constantes esforços para adquirir conhecimento e somente a nossa aplicação pode trazer um pouco de lenitivo às vivas saudades que nos faz experimentar a separação (...)’’.[2]

Se, nos estudos, o imperador ia muito bem, as diversões eram poucas. Seus divertimentos consistiam num bote que deslizava na água parada de um tanque, num teatrinho onde ele interpretava papéis em francês.

Com frei Pedro de Santa Mariana, aprendeu o hábito de ouvir com paciência, de esperar com doçura, de falar pouco, de muito perguntar, de querer com obstinação e vencer com cautela, além do gosto pelos livros, hobby que cultivou a vida toda.

Seu melhor amigo era o negro Rafael, que fora soldado no Rio Grande do Sul. Silencioso, vivo, educara-se para escudeiro e criado dos príncipes. Foi um anjo de guarda talhado em ébano, a vagar no rastro do protegido, esperando o menor sinal que fizesse. Era bom, forte e leal, sempre de sorriso nos lábios para o senhor ao qual chamava de Sua Majestade.

Aos catorze anos, D. Pedro II falava quatro idiomas e lia tudo que podia. Sua sede de conhecimento era enorme. Abandonou o costume de passeios freqüentes. Esqueceu Rafael, os exercícios ao ar livre. Devorava livros, na ânsia de entendê-los. Às vezes frei Pedro ia apagar-lhe a luz para impedir que a leitura se prolongasse noite adentro.

Tinha gosto pelos estudos pacientes. Amava as coisas do espírito e mostrava aversão aos modos dos parentes paternos. Desde cedo revelou personalidade forte, uma serenidade natural e um orgulho macio e indomável. Seria a antítese do pai. Quem o via, recordava-se da imperatriz e da tristeza que ela carregava no tempo em que o gerou. O menino era precoce na inteligência, fraco de corpo, cada vez mais Áustria no amor ao estudo, Bourbon pela memória tenaz e, na crise de crescimento, sujeito a acidente, epileptiformes que lhe acusavam a herança paterna.

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