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"Ainda que não tenha produzido nada de original, seus estudos dão uma idéia de quanto procurou aperfeiçoar-se para dignificar-se através do estudo e poder governar com sabedoria."

 

 História
Continuação - O Último Imperador

 

Uma esposa para o jovem imperador

Mal lhe haviam crescido os pelos no rosto, resolveram que deveria se casar com uma princesa européia. Princesa nenhuma se dispusera a vir para o Brasil, considerado por muitos europeus como uma terra de macacos e selvagens, onde as pessoas dormiam em árvores. Além disso, havia o fato de que ele poderia ter puxado ao pai que tanto mal causou a sua mãe.

Depois de muita procura, que levou quase dois anos, encontrou em Nápoles uma princesa disponível, Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon. Quatro anos mais velha que o imperador. Bourbon por parte de três de seus avós, Habsburgo por parte da outra avó. Aparentava com todas as dinastias do velho mundo. Pelo lado do pai, Xavier Francisco, duque da Calábria, depois Francisco I das Duas Sícilias, e bisneta de Carlos III de Espanha. Por sua mãe, Isabel Maria, filha de Carlos IV, portanto irmã da rainha de Portugal, Carlota Joaquina, e era ainda prima consangüínea de Pedro II.

Tinha o sangue de mulheres inquietas e dominadoras. Apesar disso, possuía um temperamento brando, uma pessoa sem aspirações fora do lar silencioso. Devia atravessar o tablado da vida na ponta dos pés, sem fazer ruído.

O retrato que lhe mandaram sugeria uma jovem graciosa. Escutemos sua voz: "... tranquei-me no quarto para sonhar: minha noiva era bonita, eu seria feliz". Ele teria que esperar mais de um ano até ela chegar. O casamento foi realizado por procuração, em Nápoles, a 30 de maio de 1843, com a presença dos dois corpos diplomáticos e, logo após a cerimônia, Teresa Cristina enfrentava uma longa viagem, de cerca de oitenta dias, rumo ao Brasil [3]. Aos 17 anos, Pedro arde de ansiedade para conhecer a noiva.

No dia 3 de setembro de 1843, às 6 da tarde, o navio trazendo a princesa aporta na Baía de Guanabara, mas ela só desembarcaria no outro dia. O rei adolescente põe-se ao mar naquela noite mesmo. "Minha mulher fora avisada às pressas, esperava-me no convés quando cruzei o partilho; ergui os olhos. Ela era baixa, quase uma anã, ela era gorda, ela coxeava. Ela era feia. Findava-se o retrato, findavam-se os sonhos... O sorriso de Teresa cristalizou-se antes de se fazer de todo: ela compreendia muito bem. Fitamo-nos, murmurei um comprimento de boas vindas e depois algo como até amanhã, e tornei a descer a escadinha que levava à baleeira" [4]. Não faltou-lhe, todavia, o conforto do carinho e do encorajamento: “Lembre-se da dignidade do seu cargo”, dizia-lhe o mordomo Paulo Barbosa. “Cumpra seu dever, meu filho!”, balbuciava-lhe a Dadama [5].

O amor viria com o tempo. Diziam maravilhas da princesa. Nem no casamento ele escapava da obrigação de cumprir o dever. Já não podia devolver a mulher que não escolhera.

D. Pedro II foi impecável no seu papel de esposo, apesar do descontentamento inicial. Escrevera mais tarde: "Respeito e sinceramente estimo minha mulher, cujas qualidades de caráter são excelentes"[6]. Souberam ser felizes na gratidão que um devotava ao outro.

Educou-se para servir. Isolou sua vida da política. Os amigos mais chegados eram amigos, não tentassem cargos políticos, ele não concordaria.

Teresa Cristina limitou-se às funções de esposa e mãe. Pedro II não queria que ela indagasse coisas da política e recomendou que não atendesse a pedidos de quem quer que fosse. Ela cumpriu à risca as determinações.

- Isso é lá com o imperador, respondia Teresa Cristina, quando alguém, mais ousado, lhe pedia alguma coisa [7].

Procurou aprender o português o mais rápido possível. Sua voz bem timbrada enchia de poesia as tardes tristes da Quinta de São Cristóvão.

Quando a perde em 1899, menos de um mês depois de partir para o exílio, vítima de profunda tristeza, Pedro II é o retrato da dor: “Não sei como  escrevo. Morreu haverá meia hora a imperatriz, essa Santa (...). Ninguém imagina minha aflição. Somente choro a felicidade perdida de 46 anos. (...) abriu-se na minha vida um vácuo que não sei como preencher(...).” [8]

Paternidade

Em 1845, nasceu seu primeiro filho, D. Afonso, o herdeiro da coroa, orgulho do Imperador. Seu primeiro filho era um varão, que durou pouco, segundo a maldição da casa de Bragança, onde a morte levara sempre os primogênitos homens. O menino viveu dois anos. Em 1846, nasce a primeira menina, Isabel Cristina. Um ano depois, em julho, pouco antes da morte do príncipe herdeiro, nascia outra princesa, D. Leopoldina Teresa. Outro filho homem faria a alegria de D. Pedro II em julho de 1848, Pedro Afonso, mas durou pouco. Morreu em janeiro de 50, marcando o coração do monarca solitário. Em carta ao seu camarista Joaquim Teixeira de Macedo, na manhã seguinte à morte do menino, escrevia o imperador: “Foi o golpe mais fatal que poderia receber, e, de certo, a ele não resistiria se não ficasse ainda mulher e duas crianças, que tenho a educar para que possam fazer a felicidade do país que as viu nascer, e é também uma de minhas consolações.” [9]

A infância e juventude das princesas não foram diferentes da vida que levaram as tias em São Cristóvão. Mas D. Pedro era um pai sempre presente. Gostava de cuidar ele próprio da educação das filhas, o que dizia ser sua maior diversão. Queria que as meninas, como as chamava, fossem livres, maduras e independentes.

Barral

Durante a infância das meninas entra para a História a Condessa do Barral. Esta ficaria famosa como preceptora das princesas e pela correspondência íntima que manteve com o monarca, única janela da alma de D. Pedro II, que só muito mais tarde se abriria aos olhos do mundo. Mantinham, através de uma correspondência quase diária, um amor impossível e discreto, de um sabor intelectual de que a fidalga muito ilustrada era capaz de manter. Brincavam, tinham momentos de imensa ternura, uma das poucas que teria o imperador, sempre dedicado às ciências, ao trabalho de governar, que lhe roubava o tempo. A correspondência do monarca com a Barral era de tal ordem que as cartas resumiam seus dias, falavam dos problemas do país, davam conta de pequenos incidentes na família. "O afeto que tenho por você" do "seu, sempre seu" - são expressões encontradas por toda a parte.

Sobre a primeira impressão da condessa, relatara anos mais tarde: “Quando a condessa entrou, vestida de cinza-pérola, impressionei-me, de início, com seu penteado. Sob a mantilha, os bandós bem arrumados eram totalmente grisalhos. O nariz um pouco comprido, os olhos grandes demais invadindo um rosto quase anguloso completavam minha decepção (...). Contudo, quando adiantou-se para cumprimentar-nos, senti nessa mulher algo extraordinário e indescritível. A elegância do porte, a vivacidade do olhar, a segurança tranqüila não explicam à perfeição o que dizer (...). Nunca vi uma mulher fazer a reverência como a Condessa de Barral. Respeitosa sem se humilhar, calma, segura de si e soberanamente submissa, transformava a reverência em obra de arte. Foi a primeira de uma longa série de lições de civilização que me deu, até sua morte.”[10]

Até hoje os historiadores têm dúvida sobre o relacionamento que os dois mantinham. A própria condessa condenava a descrição do amigo: “É tão raro você contar outra coisa que tomei banho, vi meus netos, li, tomei café” sem nenhuma censura, eu não chamaria isto de conversar com uma velha amiga”[11].

Em outra carta também ele deixava pairar essa dúvida: “Estou muito cansado e atirar-me-ia já na cama se as saudades não exigissem que lhe desse as mais afetuosas boas-noites (....). Nada me interessa completamente longe de você (...)”[12].

O imperador exprimiu todo o seu sofrimento com a morte da Condessa de Barral, em janeiro de 1891: “Nunca conheci inteligência assim, e sempre a mesma durante 50 anos. Estou deveras no vácuo.”[13]

O pesquisador

D. Pedro II nunca se aprofundou em nada. Em nenhuma ciência foi especialista. Dedicava-se à Egiptologia, à Astronomia. Traduzia Horácio e Tertuliano. Gabava-se de ter sido um dos primeiros a conhecer a teoria de Darwin. Traduzia a Divina Comédia. Falava latim, francês, inglês e alemão. Estudou grego, árabe, tupi, sânscrito, hebraico e provençal. Ainda que não tenha produzido nada de original, seus estudos dão uma idéia de quanto procurou aperfeiçoar-se para dignificar-se através do estudo e poder governar com sabedoria. Essa inconstância, essa sede de saber dar-lhe-iam o reconhecimento de Pasteur, a admiração de Victor Hugo, a simpatia de Mistral, a amizade de Alphonse Karr, o aplauso de Wagner, Carlos Gomes e Pedro Américo, a intimidade de Gobineau. Por sua curiosidade, ajudou Bell a divulgar seu invento (o telefone). Provocou a admiração de nomes importantes na política, nas letras, nas ciências universais.

Escreveu em seu diário em 1862: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências; e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador. Se ao menos o meu pai imperasse ainda estaria eu 11 anos com assento no Senado e teria viajado pelo mundo.”[14]

Era católico, e dizia: "Sou religioso porque a moral, condição da inteligência, é a base da idéia religiosa"[15]. Até de religião, queria conhecer um pouco de todas.

Era intransigente com os materialistas: "Não admito o ateísmo. É uma falta de humanidade. Uma ameaça perene contra a ordem social"[16].

Permitia a dispersiva adoração de Deus sob todas as formas, contanto que um benéfico deísmo enchesse a alma de doçura e magnanimidade.

No domínio do espírito, o imperador foi um voltairiano, um letrado pouco feliz nas suas elocuções, um curioso da cultura por todos os modos, um amigo dos livros, um mentor e mecenas de novos talentos. Um dos seus protegidos foi Guilherme Schuch de Capanema, que iniciou a implantação do telégrafo no Brasil.

Mas os estudos do imperador davam o que falar. Os jornais da época faziam troça. Pensava-se em luxo e ostentação. Levantaram suspeitas. O homem fingia uma cultura que não tinha. Mas o imperador não dava importância. Visitava escolas superiores munido de informação. Era perigoso em suas perguntas. E perguntava sempre.

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