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Proclamado maior em 23 de julho
de 1840 e coroado em 18 de julho do ano seguinte, D. Pedro II iniciou
um reinado que só terminou com a República, 49
anos depois.
A princípio, seu governo representou o
triunfo do Partido Liberal sobre o Conservador, mas um ano depois este
voltou à carga, com medidas reacionárias que
deixaram clara sua disposição de retomar a
cúpula do poder - como a criação do
Conselho de Estado e a reforma do código de processo
criminal - e que suscitaram a revolução liberal
de 1842, circunscrita a Minas Gerais e São Paulo.
Em 1845, no final da Guerra dos Farrapos, os
liberais dominaram a situação, mas os
conservadores logo reconquistaram a liderança e, em
conseqüência de sua atuação,
deflagrou-se a insurreição praieira de 1848, em
Pernambuco
Em 1870, no entanto, quando acabou a Guerra do
Paraguai, o país novamente encontrou os conservadores nos
postos mais elevados. A guerra tornara ainda mais agudas as
divergências políticas. Os liberais queriam a
reforma da constituição e, em 1870, surgiu o
Partido Republicano. O futuro marquês de São
Vicente, José Antônio Pimenta Bueno, que presidia
o Conselho de Ministros, considerou inconveniente o
exercício de cargos públicos por republicanos, ao
que D. Pedro II respondeu: "O país que se governe como
entender e dê razão a quem tiver". E, ante a
insistência do primeiro-ministro, arrematou: "Ora, se os
brasileiros não me quiserem como imperador, irei ser
professor". Essa tolerância, no entanto, não
implicava a falta ou recusa da autoridade. O imperador
influía pessoalmente nas indicações
para o Conselho de Estado e para o Senado, e contrariava com
freqüência as intenções
partidárias. Era um super ministro, auxiliar de seus
auxiliares, transmitindo ao governo aquela sua curiosidade desmedida,
sua moral sólida. Intransigente com a
corrupção, fiscalizava todos os concursos,
comparecia a todos os exames que podia, argüindo candidatos
nos colégios, nas faculdades, nos exames de
cátedra.
Metódico,
impunha sua disciplina a quantos lhes estavam ao alcance das
mãos. Submetia seus ministros a verdadeiras sabatinas. Capaz
de se imiscuir na nomeação de um subdelegado de
arrabalde, num atraso de um navio, na reclamação
de um funcionário. Investigava criteriosamente a vida de
cada um dos candidatos ao Senado antes de escolher um na lista
tríplice vinda dos Estados.
No primeiro sábado de cada
mês, recebia, em uniforme, todo o corpo
diplomático. Todos os sábados concedia
audiência pública, recebendo a quantos
solicitassem, ricos e pobres, nobres e plebeus.
Despachava com os ministros à noite,
muitas vezes até às duas da manhã.
Queria saber de todos os negócios. Decreto que
não assinava, exigia estudos mais apurados.
Na questão religiosa de 1872, fez
prender e processar os bispos D. Vital e D. Macedo Costa, que
desafiaram o poder real. Depois de julgados e condenados pelo Supremo
Tribunal em 1875, concedeu-lhes a anistia. É
indiscutível, porém, que o imperador exerceu sua
autoridade com discernimento, assegurou ao legislativo o pleno
desempenho de suas funções e à
imprensa a inteira liberdade de expressão.
A escravidão
O imperador dava razão aos ingleses no
caso dos escravos. Se pudesse, acabaria com a escravidão de
um só golpe. Se dependesse dele, limparia de uma
só vez a mancha negra que vilipendiava nossa bandeira nos
mares e ofuscava o brilho da formação social do
país. Pessoalmente dera seu exemplo, libertou os
últimos cativos do serviço imperial. Queria a
libertação das senzalas, sem despotismo, sem
revolução, sem catástrofes.
Em conversa com o diplomata argentino Hector Varela
disse:
“A escravidão! Acredita o
senhor que haja no Brasil algum compatriota que deseje mais
ardentemente do que eu a abolição? Nenhum! E os
primeiros a saber como eu penso são os que trabalham
à frente do belo movimento de
emancipação. Alguns me atacam, com marcada
injustiça, afirmando que eu retardo a hora, que no entanto
será a mais feliz do meu reinado, em que não haja
um só escravo em minha Pátria, e que o
último desses infelizes seja tão livre quanto
eu.”[17]
O viajante
Viajou por todo o Brasil, de Norte a Sul. Queria
conhecer de perto seu povo, gostava de saber de tudo que se referia
à gente local e à natureza que a cercava.
Em 1859, por exemplo, o monarca atravessou grande
parte do território nacional, do Rio de Janeiro à
Paraíba, muitas vezes montado em lombo de burro ou a bordo
de toscas embarcações. Quando passou pela Bahia,
fez o seguinte comentário: “Na fazenda dos Olhos
d’água fiquei mal acomodado na senzala –
nome que convém à casa que aí
há – mas sempre arranjei cama em lugar de rede e
dormiria bem, apesar das pulgas, cujas mordeduras só senti
outro dia de manhã, se não fosse o calor, e a
falta de água que é péssima
aí, tardando a de Vichy, que vinha na bagagem pela falta de
condução.”[18]
A 25 de maio de 1871, Pedro II iniciava sua
primeira viagem à Europa. Partiu para aquele continente
deixando a casa em ordem, a primeira lei abolicionista pronta para ser
aprovada. Dispensava a glória. Mas era preciso fazer algo
para o início da eliminação total dos
escravos. Cada vez que viajava, o monarca tinha de batalhar uma
autorização da Câmara, nem sempre
fácil. Os políticos temiam deixar o
país sob as rédeas da princesa Isabel, que na
primeira viagem internacional do pai tinha apenas 24 anos.
Queria viajar "incógnito". Iria por sua
própria conta. Não aceitava nenhuma ajuda do
Estado. A 12 de junho, no desembarque em Lisboa, uma surpresa os
aguardava. O governo exigia quarentena para os passageiros da
América.
- Evidentemente, a medida não atinge Sua
Majestade.
- Por que não? A
ordem é para todos [19].
Nas suas três viagens ao exterior, foi a
América do Norte, Europa, Ásia e
África. E então pôde conhecer
diretamente pessoas que só conhecia através de
seus estudos. Entre chefes de Estados, cientistas, artistas e letrados,
D. Pedro era sempre muito cortejado. Não aceitava se
hospedar em palácios, ficava em hotéis por sua
própria conta. Não admitia que o chamassem fora
do Brasil de Sua Majestade e, sim, de senhor Pedro de
Alcântara.
Em sua segunda e a mais longa
das viagens ao exterior, de 18 meses, em 1876, o motivo foi a
saúde da imperatriz Teresa Cristina, atendida na Europa pelo
famoso médico neurologista Jean Martin Charcot, de quem
Freud foi discípulo. Nessa mesma ocasião, D.
Pedro II aproveitou para passear pelos Estados Unidos, onde se encantou
com os arranha-céus, os trens e o desenvolvimento da
agricultura. O contato com o presidente americano Rutherford Hayes
deixou as seguintes impressões: “Seu aspecto
é grosseiro. Pouco fala. A nora é muito
amável. A mulher feia e vesga faz o que pode para ser
amável. O filho parece rapaz muito inteligente.”[20] Nessa mesma viagem visitou
Rússia, Criméia, Constantinopla, Atenas, Beirute
e a Terra Santa.
O fotógrafo
Em janeiro de 1839, através de
notícia publicada no "Jornal do Commercio", soube da
invenção do daguerreótipo. Um ano mais
tarde, o abade Louis Compte, capelão de um navio-escola
francês que aportara no Rio de Janeiro, fez uma
demonstração do processo ao jovem D. Pedro II,
então com 14 anos. Mais tarde D. Pedro adquiriu uma
câmara e tornou-se o primeiro brasileiro e possivelmente o
primeiro monarca do mundo a tirar uma foto. Entre 1851 e 1889 concedeu
o título de "Fotógrafo da Casa Imperial" a mais
de duas dezenas de fotógrafos.
D. Pedro II também ganhava ou comprava
fotografias em suas viagens, tanto nas que realizou pelo interior do
Brasil como nas três que fez ao estrangeiro. Encontram-se
nessas fotografias, com freqüência,
dedicatórias ou anotações de seu
próprio punho.
A República
No
dia 15 de novembro de 1889, recebeu em seu palácio de
Petrópolis, uma carta do governo provisório, cujo
chefe era seu amigo pessoal, Deodoro da Fonseca. O documento dizia:
“Os sentimentos democráticos da
nação há muito preparados haviam agora
despertado. Obedecendo pois às exigências do voto
nacional, com todo o respeito à dignidade das
funções públicas que acabais de
exercer, somos forçados a notificar-vos que o Governo
Provisório espera de vosso Patriotismo o
sacrifício de deixardes o território Brasileiro
com vossa família, no mais breve prazo
possível”[21].
D. Teresa Cristina
soluçava, caída sobre uma poltrona. D. Isabel
procurava consolá-la, chorando também. Pedro,
munido de pena, tinteiro e papel preparava-se para responder. O Governo
Provisório dera-lhe 24 horas para deixar o país.
Não reagiu de forma
alguma, não queria derramamento de sangue por sua causa. Nem
se preocupava com o problema da sobrevivência no exterior.
Rabiscou um bilhete pedindo um exemplar de Os
Lusíadas que ganhara do Senador Mafra. O livro era
uma raridade. Além de ser uma primeira
edição, tinha um autógrafo de
Luís de Camões, seu dono. Foi a única
coisa que pediu de São Cristóvão.
Ninguém lhe contou do negro, octogenário, que
caíra fulminado por um ataque cardíaco. Rafael, o
gigante de ébano, que carregara o menino imperador nos
ombros, caíra sem ser percebido. “À
vista da representação escrita que me foi
entregue hoje as 3:00Hs da tarde, resolvo, cedendo ao
Império das circunstâncias, partir com toda minha
família para a Europa amanhã, deixando essa
Pátria, de nós estremecida, a qual me esforcei
para dar constantes testemunhas de entranhado amor e
dedicação durante quase meio século em
que desempenhei o cargo de Chefe de estado. Ausentando-me pois eu com
todas as pessoas da minha família conservarei do Brasil a
mais saudosa lembrança, fazendo ardentes votos por sua
grandeza e prosperidade. D. Pedro de Alcântara. Rio de
Janeiro 16 de Novembro de 1889, sexagésimo sétimo
ano do Império.”[22]
Na madrugada de 17 de novembro,
D. Pedro II partia para o exílio. Levava a
família, acabando com o regime monárquico no
país, que durara 67 anos. D. Pedro falou: "É a
minha aposentadoria. Já trabalhei muito. Irei descansar.
Afinal sou livre. Posso ir para onde bem quiser"[23].
No dia 28 de dezembro do mesmo ano, 40 dias
após o banimento, morreu em um hotel de Lisboa a Imperatriz
Teresa Cristina. Nos seus últimos instantes de vida,
confidenciou à Baronesa de Japurá:
- Maria Isabel, eu
não morro de doença. Morro de dor e de desgosto.[24]
O
exílio
Após a morte da Imperatriz, D. Pedro II
mudou-se para a França e passou a residir no Hotel Beldford,
em Paris. O Hotel não era o maior nem o mais luxuoso da
cidade. Suas instalações, embora modestas,
pareciam um recanto sossegado e confortável, bem adequado a
uma pessoa de idade. Essas condições
atraíram o Sr. Alcântara, de 65 anos, como passou
a ser conhecido.
Quando não recebia visitas, passava os
dias lendo e estudando. Nas vezes em que saía apoiado numa
pequena bengala para vencer a escadinha do hotel, procurava as
associações científicas ou
literárias. Desfrutava doravante o doce lazer da velhice em
meio aos seus fiéis companheiros, os livros.
Com o tempo, acostumando-se à cidade,
adquiriu um hábito. Saía do hotel e tomava um
coche alugado, deixando se levar pelas alamedas arborizadas, ouvindo o
ruído das patas do cavalo no cascalho do
calçamento, até próximo à
universidade. Ali ficava na Biblioteca Nacional Nazarino, que se tornou
seu refúgio predileto.
Passava horas agradáveis lendo e tomando
notas. Só a primeira vez teve problema quando precisou
preencher uma ficha para retirar livros. Nela devia declarar nome e
profissão, mas seu nome comprido demais não cabia
na pequena ficha. Quanto à profissão, era
difícil explica-la.
Em novembro de 1891, uma ferida
no pé fez com que não pudesse mais sair de casa.
Pouco depois sobreveio uma pneumonia, e
a 5 de dezembro morria o Imperador do
Brasil. Sem coroa, sem casa própria, sem pátria,
pobre, simples como viveu. Colocaram em baixo de sua cabeça
uma almofada. Não era uma simples almofada. Era a
pátria. A pátria que amou, a pátria a
que procurou dar eleições livres, a
pátria que tentou reformar sem sangue, numa
evolução de cultura. Naquela almofada estava a
terra do Brasil, que pedira que lhe trouxessem para repousar a
cabeça na ilusão de ter restituída a
pátria que tanto amou [25].
Gilmar Moreira
Gonçalves é Professor do Departamento de
História da FIC (Faculdade Integradas de Cataguases) e do
Instituto Nossa Senhora do Carmo. Professor de Geografia da rede
municipal de ensino de Cataguases. Pós-graduado em
História Geral, UNIPAC de Ubá, em dezembro de
2000. Mestrando em Literatura Brasileira, CES/JF.
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