Luís
Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, nasceu no
castelo de Neuilly, França, em 28 de abril de 1842. Era filho de Luís
de Orléans (1814-1896), Duque de Nemours, e da princesa Vitória de
Saxe-Coburgo Gotha (1785-1851). Com a vitória da segunda república,
em 1848, foi exilado junto com a família real francesa e passou a
viver no palácio de Claremont, perto de Londres. Nomeado alferes de
cavalaria pela rainha da Espanha, Isabel II, participou da campanha
do Marrocos. De volta, com atos de bravura registrados em sua fé de
oficio, entrou para a Escola Militar de Segóvia, de onde saiu em
1863 com as patentes de capitão de cavalaria e tenente de
artilharia. Retornou então ao Reino Unido.
Não
era visto com simpatia pelos brasileiros; acusaram-no de avarento,
de aproveitador e de alheio aos interesses da nação. Devido a uma
surdez e ao forte sotaque, era mantido isolado, jamais chegou a ser
admitido na sociedade brasileira, para a qual ele foi, até o fim,
“o francês”. Compartilhava com a família imperial da mesma idéia
a respeito da escravidão: “É difícil sonhar com país mais
belo. Só há um aspecto negro, e bem negro, é a natureza criminosa
do trabalho que serve de base a toda essa opulência. Reformar esse
ponto sem transformar em deserto os campos onde brilham os
cafeeiros, eis o problema sobre o qual teria muito a dizer”.[1]
Após
o casamento, Isabel e Gastão passaram a freqüentar teatros,
promover bailes, festas e reuniões. Mas sempre havia tempo para os
passeios solitários. E, nos momentos de intimidade, Isabel corrigia
o português de Gastão e juntos liam Walter Scott, Tocqueville,
Octave Feuillet, autores famosos da época.
Regência
e maternidade
Em
sua segunda viagem à Europa, Isabel recebeu o chamado urgente da Áustria,
onde sua irmã, após ter o quarto filho, passava mal e queria vê-la.
Mas a visita não foi possível, Leopoldina estava com tifo e morreu
pouco depois, com apenas 24 anos. Foi grande a angústia de Isabel e
ela relata isso em carta aos pais. “Não tenho ânimo de fazer
nada, senão rezar e chorar. Lembrem-se de que ainda tem uma filha,
que tanto os ama. Pelo amor de Deus, não fiquem doentes”[2].
Por esse motivo, retornaram ao Rio de Janeiro. E, no mesmo ano, seus
pais resolveram viajar para a Europa com o intuito de verificar a
qualidade de vida levada por seus netos órfãos.
Durante
a ausência do pai, Isabel assumiu o trono como regente aos 25 anos
de idade. No período em que exerceu o poder, no ministério do
Visconde do Rio Branco, entre 7 de maio de 1871 e 31 de março de
1873, sancionou a Lei do Ventre Livre, que libertava os filhos que
nascessem de mãe escrava.
Na
mesma época ela ficara grávida, mas perdera a criança. Em julho
de 1874, em viagem à Europa, nascia morta uma menina. Em 1875
nasceu Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará casado mais
tarde com a condessa austríaca Elizabeth Dobrzensky de Dobrzenicz.
Em 1878 Isabel teria outro filho, D. Luís, casado com a princesa
Maria Pia de Bourbon Sicília. Por último, nasce D. Antônio, morto
solteiro. A princesa procurou dar uma formação democrática aos
filhos, matriculando-os no colégio do Padre Moreira, freqüentado
pelas crianças mais simples de Petrópolis.
Abolição
e exílio
Voltou
a assumir o cargo de regente em 26 de março de 1876, quando da
viagem de Pedro II aos Estados Unidos, e nele permaneceu até 27 de
setembro do ano seguinte. Em sua terceira regência, iniciada em 5
de janeiro de 1887, a princesa aceitou a renúncia do gabinete
escravocrata do Barão de Cotegipe e designou primeiro-ministro o
conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira. O novo governo impôs
uma rápida tramitação à lei que abolia a escravidão, sancionada
por Isabel em 13 de maio de 1888, que acabou com a mancha da
escravidão no último país americano a ter escravos.
Em
carta ao pai, a princesa relatava episódio da abolição: “Foi
com coração mais aliviado que, perto de uma hora da tarde,
partimos para o Rio a fim de eu assinar a grande lei, cuja maior
gloria cabe a Papai que há tantos anos esforça-se para tal fim. Eu
também fiz alguma coisa e confesso que estou bem contente de também
ter trabalhado para idéia tão humanitária e grandiosa. A maneira
pela qual tudo se passou honra nossa pátria e tanto jubilo me
causa. Os nossos autógrafos da lei e o decreto foram assinados às
3 e meia, em publico, na sala que precede a grande do trono. O Paço
(mesmo as salas) e o largo estavam cheios de gente e havia grande
entusiasmo; foi uma festa grandiosa, mas o coração apertava-se-me
lembrando que Papai aí não se achava! Discursos, vivas, flores,
nada faltou. Às 4 e meia, embarcávamos de novo e, em Petrópolis,
novas demonstrações nos esperavam.”[3]
A
decisão valeu à princesa imperial a condecoração da Rosa de
Ouro, concedida pelo papa Leão XIII. Ao ouvir a notícia da
assinatura da Lei Áurea, D. Pedro mandou um telegrama à filha:
"Abraço a Redentora". Patrocínio, orador popular da
libertação, escrevera no livro: "Os reis criam princesas. O
Imperador criou uma mulher"[4].
Cotegipe,
ao lhe beijar a mão, disse: “A senhora ganhou a partida, mas
perdeu seu trono”[5].
É certo que o mérito não foi apenas dela, mas seu interesse pela
causa foi de fundamental importância. Os fazendeiros escravocratas,
sustentáculos da política imperial, abandonaram o imperador após
a abolição. E disso já sabia muito bem Isabel antes de assinar a
Lei Áurea.
Em
novembro de 1889, a República é proclamada. Junto com sua família,
Isabel seguiu para o exílio. “É com o coração partido de dor
que me afasto de meus amigos, de todos os brasileiros e do país que
tanto amei e amo, para cuja felicidade esforcei-me por contribuir e
pela qual continuarei a fazer os mais ardentes votos. Rio de
Janeiro, 16 de novembro de 1889. Isabel, Condessa d’Eu”[6].
Ela
morreria em 14 de novembro de 1921, no Castelo d’Eu, na França.
“Com saudades de Petrópolis, de minha casa, do meu jardim e de
minhas amigas...”[7]
Mas seria sempre lembrada, Isabel, a redentora dos escravos. Ainda
no navio que a levava para o exílio, teria dito a Rebouças:
“Senhor Rebouças, se houvesse ainda escravos no Brasil, nós
voltaríamos para libertá-los”[8].
Gilmar
Moreira Gonçalves é Professor do Departamento de História da FIC
(Faculdade Integradas de Cataguases) e do Instituto Nossa Senhora do
Carmo. Professor de Geografia da rede municipal de ensino de
Cataguases. Pós-graduado em História Geral, UNIPAC de Ubá, em
dezembro de 2000. Mestrando em Literatura Brasileira, CES/JF.