"Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos
viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela
cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter." Martin Luther King
Em 23 de agosto de 1963, o reverendo
Martin Luther King Jr. fez um dos maiores e mais belos
discursos do Século XX, exaltando a importância dos
Direitos Humanos nos Estados Unidos. Cem anos tinham se
passado desde a Proclamação de
Emancipação - o primeiro documento determinando uma
parcial abolição da escravidão naquele país, e
fundamento da 13ª Emenda, assinado pelo Presidente
Abraão Lincoln. No entanto, como esclarece o
historiador Voltaire Schilling:
"A alforria dos escravos
negros, porém, não lhes trouxe a cidadania. Não os
tornou o que Yves Zarka chamou de sujeitos do direito.
E à sombra do Memorial de Lincoln em Washington, Luther
King vinha cobrar a conta. Na sua frente uma
multidão de mais de 250 mil pessoas formava a maior
concentração até então vista no país a favor dos
Direitos Civis. Os negros, disse ele, receberam
promessas de igualdade mas a América ainda não as
honrara. Pagara-os com um cheque sem fundo. Em meio a
uma estonteante prosperidade de um país riquíssimo, os
afro-americanos viviam isolados em ilhas de miséria, em
guetos urbanos, atormentados pela segregação e pela
brutalidade policial."
Abaixo apresentamos o emocionante
discurso.
Eu tenho um sonho
Eu estou contente em
unir-me com vocês no dia que entrará para a história
como a maior demonstração pela liberdade na história de
nossa nação.
Há cem anos passados, um grande
americano, sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinava a
Proclamação da Emancipação. Esse momentoso decreto foi como um raio de
luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido
marcados a ferro nas chamas de vergonhosa injustiça. Veio como uma
aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro.
Mas, cem anos mais tarde, devemos
enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre. Cem
anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada
pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem
anos mais tarde, o Negro continua vivendo numa ilha isolada de
pobreza, em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos
mais tarde, o Negro ainda definha a margem à margem da sociedade
americana, encontrando-se no exílio em sua própria pátria. Assim,
encontramo-nos aqui hoje para dramatizarmos tal consternadora
condição.
Em um sentido viemos à capital de
nossa nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos de nossa
república escreveram as palavras majestosas da Constituição e da
Declaração de independência, estavam assinando uma nota promissória da
qual cada cidadão americano seria herdeiro. Essa nota foi uma promessa
de que todos os homens teriam garantidos seus inalienáveis direitos à
vida, à liberdade e à busca da felicidade.
É óbvio que ainda hoje a América não
pagou tal nota promissória no que diz respeito aos seus cidadãos de
cor. Em vez de honrar tal compromisso sagrado, a América deu ao Negro
um cheque sem fundos; um cheque que foi devolvido com a seguinte
inscrição: “fundos insuficientes”. Nós nos recusamos aceitar a idéia,
porém, de que o banco da justiça está falido. Recusamos acreditar não
existirem fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidades desta
nação. Por isso aqui viemos para cobrar tal cheque – um cheque que nos
será pago com as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.
Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da veemente
urgência do agora. Este não é o tempo para se dedicar à luxuria
da postergação, nem para se tomar a pílula tranqüilizante do
gradualismo. Agora é o tempo para que se tornem reais as
promessas da Democracia. Agora é o tempo para que nos
levantemos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado
caminho da justiça racial. Agora é o tempo de abrir as portas
da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é o tempo
para levantar nossa nação da areia movediça da injustiça racial para a
rocha sólida da fraternidade.
Seria fatal para a nação não levar a
sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este
sufocante verão do descontentamento legítimo do Negro não passará até
que ocorra o revigorante outono da liberdade e igualdade. 1963 não é
um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava apenas
se desabafar, e que agora ficará contente como está, terão um rude
despertar se a Nação retornar à sua vida normal como sempre. Não
haverá tranqüilidade nem descanso na América até que o Negro tenha
garantido todos os seus direitos de cidadania. Os turbilhões da
revolta continuarão a sacudir as fundações de nossa Nação até que
desponte o luminoso dia da justiça.
Existe algo, porém, que devo dizer ao
meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da
justiça. No processo de ganharmos nosso lugar de direito não devemos
ser culpáveis de atos irregulares. Não busquemos satisfazer a sede
pela liberdade tomando da taça da amargura e do ódio. Devemos conduzir
sempre nossa luta no plano elevado da dignidade e disciplina. Não
devemos deixar que nosso criativo protesto degenere em violência
física. Sempre e cada vez mais devemos nos erguer às alturas
majestosas de enfrentar a força física com a força da alma. Esta
maravilhosamente nova militância que engolfou a comunidade negra não
deve nos levar a uma desconfiança de todas as pessoas brancas, pois
muitos de nossos irmãos brancos, como evidenciado por sua presença
aqui, hoje, estão conscientes de que seus destinos estão ligados ao
nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente unida à nossa
liberdade. Não podemos caminhar sozinhos.
À medida que caminhamos, devemos
assumir o compromisso de marcharmos avante. Não podemos retroceder.
Existem aqueles que estão perguntando aos devotados aos direitos
civis: “Quando vocês ficarão satisfeitos?” Não podemos ficar
satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores incontáveis da
brutalidade policial. Não podemos ficar satisfeitos enquanto nossos
corpos, pesados pela fadiga da viagem, não puder encontrar um lugar de
descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não podemos
ficar satisfeitos enquanto a nobreza básica do Negro passa de um gueto
pequeno para um maior. Não podemos jamais ficar satisfeitos enquanto
um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova York crê não
existir nada pelo qual votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e não
ficaremos satisfeitos até que a justiça corra como água e a retidão
também, como uma poderosa correnteza.
Não desconheço que alguns de vocês
vieram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês
recém saíram de diminutas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de
áreas onde sua busca pela liberdade deixou em vocês marcas das
tempestades de perseguição e fê-los tremerem pelos ventos da
brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo.
Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento imerecido é
redentor.
Voltem ao Mississipi, voltem ao
Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à
Louisiana, voltem às favelas e aos guetos de nossas modernas cidades,
sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não
nos enpojemos no vale do desespero.
Digo-lhes, hoje, meus amigos, que
apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um
sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Tenho um sonho que algum dia esta
nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença.
“Afirmamos que estas verdades são evidentes; todos os homens foram
criados iguais”.
Tenho um sonho que algum dia nas
montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos
de antigos donos de escravos poderão sentar-se à mesa da
fraternidade.
Tenho um sonho que algum dia o estado
do Mississipi, um estado deserto sufocado pelo calor da injustiça e
opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Tenho um sonho que meus quatro
pequenos filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados
pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que algum dia o estado
de Alabama, cujos lábios do governador atualmente pronunciam palavras
de interposição e nulificação, seja transformado para uma condição
onde pequenos meninos negros, e meninas negras, possam dar-se as mãos
com outros pequenos meninos brancos, e meninas brancas, caminhando
juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que algum dia todo vale
será exaltado, toda montanha e encosta será niveladas, os lugares
ásperos tornar-se-ão lisos, e os lugares tortuosos serão direcionados,
e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão,
juntamente.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé
com a qual regresso ao sul. Com esta fé seremos capazes de tirar da
montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos
transformar as dissonantes discórdias de nossa nação em uma linda
sinfonia harmoniosa de fraternidade.Com esta fé poderemos trabalhar
juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à prisão juntos, ficarmos juntos
em posição de sentido pela liberdade, sabendo que algum dia seremos
livres.
Esse será o dia quando todos os filhos
de Deus poderão cantar com um novo significado: “Meu país é teu, doce
terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram meus pais,
terra do orgulho dos peregrinos, de cada rincão e montanha que ressoe
a liberdade”.
E se a América for destinada a ser uma
grande nação isto deve se tornar realidade. Que a liberdade
ressoe destes prodigiosos planaltos de New Hampshire. Que a liberdade
ressoe destas poderosas montanhas de New York. Que a liberdade ressoe
dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!
Que a liberdade ressoe dos nevados
cumes das montanhas Rockies do Colorado!
Que a liberdade ressoe dos picos
curvos da Califórnia!
Não somente isso; que a liberdade
ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha
Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada
Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
De cada rincão e montanha, que a
liberdade ressoe.
Quando permitirmos que a liberdade
ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada
estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia quando
todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentis,
protestantes e católicos, com certeza poderão dar-se as mãos e
cantar nas palavras da antiga canção negra: “Liberdade afinal!
Liberdade afinal! Louvado seja Deus, todo-misericordioso, estamos
livres, finalmente!”