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Num lugar da Mancha, de cujo
nome não me quero lembrar, vivia, não
há muito tempo, um desses fidalgos que usam lança
em hastilheira, adarga antiga, cavalo magro e galgo corredor.
Quem
não conhece as primeiras palavras do Dom Quixote, de
Cervantes? Assim o filho maior de Alcalá de Henares inicia
sua obra máxima para depois de terminada, rodar a velha
Espanha do séc. XVII com o intuito de publicá-la,
tarefa árdua e difícil, pois nenhum editor
acreditava nele; conseguimos imaginá-lo com os seus
volumosos manuscritos batendo à porta de editores que
não lhe davam nenhum crédito, mas Cervantes penou
até para encontrar alguém que prefaciasse sua
obra, imaginamos então como foi difícil achar
alguém que a publicasse.
Talvez
seja O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha a melhor obra-prima
da literatura universal. Que faz esta obra cheia de falhas, enganos
grosseiros, absurdos erros - há muitas partes desta obra em
que seu autor comete alguns "lapsos", o mais conhecido é
quando Cervantes faz o escudeiro Sancho Pança perder o seu
burrico e mais adiante continuar fazendo referência ao
escudeiro no seu burro - ser considerada uma das melhores obras-primas
da literatura mundial? O seu estilo "quase nulo"? O seu tom
irônico? Ou a eterna luta entre o sonho e a realidade que
tanto preocupa e encanta o homem? Talvez até nenhuma dessas
pode convencer um leitor do contra, que muito provavelmente
não é o leitor Machado de Assis que o lia e
relia, anotando e comentando-o com os intelectuais da época,
o autor de Brás Cubas tinha-o como a obra máxima
da arte da escrita.
Foi
bem aceito o Dom Quixote e como este influenciou tantos escritores e
obras de diferentes épocas e países!
Para citar alguns, basta lembrar Madame Bovary, de Gustave Flaubert,
considerada um Dom Quixote de saias, não
esqueçamos nós da importância daquele
obra que iniciou o Realismo na França em 1857. Na
Rússia de Dostoievski encontramos deste mesmo autor O
Idiota, em que há muito da natureza quixotesca. Esta
influência o próprio Dostoievski confessa numa
correspondência. A obra-prima do inglês Charles
Dickens, As aventuras do Sr. Pickwick, nada mais é que um
outro Dom Quixote e não saindo da Inglaterra vemos o
próprio William Shakespeare escrevendo uma
comédia desconhecida com pitadas de Dom Quixote. No Brasil,
particular atenção tem José de
Alencar, Aluísio de Azevedo, Coelho Neto e o já
citado Machado de Assis pela obra cervantina e mais recentemente, no
Pré-Modernismo, Lima Barreto com Triste fim de Policarpo
Quaresma e na Segunda Fase do Modernismo, José Lins do Rego
reencarna o Cavaleiro da Triste Figura na personagem Capitão
Vitorino, em Fogo Morto.
Esta
obra teve duas partes: uma em 1605 e outra em 1615, um ano antes de seu
autor falecer. A segunda parte só veio à tona por
ter surgido uma edição falsa de um Dom Quixote
fatalmente falso. Esta edição falsa, surgida com
o pseudônimo Avellaneda, perturbou assaz Cervantes. Esse fato
também irrita incontrolavelmente Cervantes e
fá-lo publicar a sua verdadeira
continuação, desta vez fazendo questão
de deixar o seu herói morto para que ninguém
possa continuar a sua história.
Após
o nosso Cavaleiro ler muitos livros de cavalaria andante, enlouquece e
após a loucura vem a necessidade de também imitar
os cavaleiros andantes. Veste uma armadura velha, que pertenceu aos
seus ancestrais, convida o seu vizinho Sancho Pança, em
troca de um governo de uma ilha, para ser o seu fiel escudeiro, monta o
seu rocim fraco, transforma-se no Dom Quixote e vão
cavaleiro, escudeiro, cavalo e burrico em busca de aventuras, salvando
e protegendo fracos e oprimidos, donzelas em perigo e tantos outros
injustiçados. Mas o mundo e as pessoas não
aceitam o Dom Quixote, eles zombam e ridicularizam-no. Dom
Quixote é um louco, mas em muitos momentos ele é
o sábio, o filósofo, o poeta de um mundo que o
reprime, que zomba dele, que o humilha, que não reconhece a
sua bondade infinita e o seu desejo
extraordinário e incansável de salvar o mundo.
Um
amigo seu, disfarçado de cavaleiro andante,
propõe-lhe um dueto, neste dueto quem for o vencido
deverá obedecer ao que o vencedor propor. Dom Quixote perde
e agora deverá obedecer ao cavaleiro vencedor, este ordena-o
a deixar a vida da cavalaria andante e exige que volte para casa, o
nosso herói, vencido pela própria palavra,
obedece ao cavaleiro, vai para casa. No caminho já
começa a idealizar uma vida amena e tranqüila no
campo, onde ele e o seu amigo Sancho viveriam à moda de
pastores ao lado de suas "dulcinéias". Mas felizmente
recupera-se da sanidade e poucos dias depois falece.
As
novas idéias que povoavam a cabeça de Dom Quixote
na volta para casa parecem-me precursoras de um estilo de
época inovador que só surgiria em 1690, na
Itália: o Arcadismo, já que essa
estética era voltada para a vida simples em contato com a
natureza, seria a retomada do fugere urbem e da aurea mediocritas.
Há
muitas passagens suas que devem ser revisitadas: a primeira
saída e os seus infortúnios, a conversa de D.
Quixote com o escudeiro Sancho Pança convencendo-o a
segui-lo em suas viagens, a confusão que o cavaleiro fez com
o rebanho de ovelhas, seu ato de bravura diante dos leões,
suas declarações à amada
Dulcinéia, contudo uma das melhores é o seu
encontro com os moinhos de vento, confundidos com gigantes, que aqui
descrevo alguns trechos integralmente:
-
A aventura nos vai guiando melhor as coisas do que pudéramos
desejar; ali estão, amigo Sancho Pança, trinta
desaforados gigantes, ou pouco mais, a quem penso combater e
tirar-lhes, a todos, as vidas, e com cujos despojos
começaremos a enriquecer; será boa guerra, pois
é grande serviço prestado a Deus o de extirpar
tão má semente da face da terra.
-
Que gigantes? - inquiriu Sancho Pança.
-
Aqueles que vês ali, com grandes braços -
respondeu-lhe o amo; - alguns há que os têm de
quase duas léguas.
Com
certeza não eram gigantes que o Cavaleiro da Triste Figura
mostrava ao seu fiel escudeiro Sancho Pança, eram moinhos de
ventos!
A
princípio Cervantes teria a intenção
de apenas satirizar os livros de cavalaria, mas foi muito
além com a eterna luta do homem vivendo entre o sonho e a
realidade, assim a obra se transforma num verdadeiro sentido universal
da vida, numa alegoria, numa narrativa encantadora e sublime, que
proporciona momentos de tristezas e alegrias.
Dom
Quixote é um desses livros que devem ser lidos e relidos,
escolhidos para serem colocados à cabeceira, pois muito
freqüentemente ficamos ansiosos para retomar a sua leitura.
Hoje, depois da Bíblia, é o livro mais lido e
traduzido no mundo. Vale¹.
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¹ Expressão
latina que significa Adeus. Esta mesma saudação
Cervantes pôs no final do prólogo do seu Dom
Quixote.
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