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Era
preciso compreender aquela cisão, sabia disso...
Difícil é não poder ver-me
inteiramente, por mais que tente, após o espelho quebrado...
Fragmentos múltiplos refletem os múltiplos
derivados de mim. Um certo eu elevado à sempre
variável enésima potência, buscando a
experiência matemática e ontológica da
unidade... Ene tem que ser igual a zero, então. O zero
incriado, número que não é
número, este i-número, por não ser, e
inúmero por ser tantos...
Enquanto
o zero não esvazia a minha
mente, que ainda anda muito longe do zazen, resolvo ensaiar,
contemporaneamente, outros enes hipotéticos para meu ser
exponencial e me surpreendo com a miríade de imagens que
encontro, miragens refletidas e tão diversas, nos milhares
de pedaços espalhados no assoalho de minhas
vivências...
Vejo,
súbito, uma garota
tímida que decidiu viver sua vida no alto, contemplando
grandes panoramas, viajando num balão onde se sente
protegida e que lhe oferece uma falsa sensação de
liberdade... Abaixo, avista incríveis cidades e se delicia
com o desenho intrincado desses grandes organismos
construídos pelo homem... Pensa sempre em Ítalo
Calvino e nas aventuras de Marco Polo pelas Cidades
Invisíveis, orgulhando-se da vantagem ilusória de
um cômodo ponto de observação, que lhe
permite desvelar os macro-mistérios dessa pudica e constante
invisibilidade do real, restando ainda os micros, é claro,
mas isso já é uma outra estória...
Passa
o tempo assim, entre o sonho e a fantasia,
etericamente experimentando-se no mundo.
De vez em quando, aterrissa seu
balão e dá umas voltas pela terra, curiosa e
extasiada com a mudança de perspectiva... Mas logo se
lança ao ar novamente, fadigada com o peso daquela realidade
terrenal ou simplesmente saudosa de seu fiel elemento. Descobriu um
dia, investigando seu sangue ao microscópio, que possui
células nômades e, a partir de então,
compreendeu o porquê dessa sua
inquietação face ao extático, dessa
ânsia pelo mutante, pela eterna novidade, a qual, no final
das contas, pode ser apenas novas formas de
apreciação do mesmo, ou alturas diversas de
vôo no balão...
Outra
imagem então desafia essa:
a de um ser musical, que
canta, escuta e celebra o cômico e o trágico da
vida; alguém que ainda acredita na magia dos encontros de
carne e osso, que percebe a Arte no cotidiano mais banal e que consegue
acessar a pureza de um lugar intocado dentro de cada ser humano...
Sobretudo, alguém que ama e cultiva o feminino em si. Um ser
extremamente denso e físico, em aparente
oposição à volátil e
insegura hóspede de balão; mulher incrivelmente
à flor da pele, que adora estar agrupada, compartilhando e
multiplicando sua energia com a diversidade do mundo, trocando sorrisos
e abraços, brincando despretensiosamente como fazem as
criança e rindo, rindo muito...
De
repente, no meio desse mosaico de cacos
espelhados, encontro uma imagem singular: Um par para uma
dança... Um outro vibrando na minha
freqüência e que, num desses momentos de espetacular
harmonia cósmica, se faz brilhar entre os demais... Coisa
mais linda é o que se sucede: uma espécie de
lundu-marajoara, meio tango e meio gafieira, às vezes
até meio desajeitado, cheio de pernas, mãos e
rebolados... Uma dança que extravasa por todos os poros,
enlinhando os corpos e misturando os suores, despertando, pela verdade
que revela, os olhares, os desejos e os amores de todos os outros
presentes...
Nesse
momento incrível, uma epifania se
dá e compreendo que é na borda onde existo. Ali
está meu ene-zero, minha partida e minha chegada. Nesse
estreito e fértil espaço entre planos, entre
cacos, realidades, pensamento, emoção, corpo e
alma... Na fração de segundo que antecede a
aterrissagem do balão. Somente ali encontro a verdadeira
liberdade; no geométrico ponto onde, espontaneamente e longe
de meu tentador controle, ocorre uma sobreposição
de minhas imagens; ali onde vislumbro um infinito
caleidoscópio de mim, meu ser idiossincrático,
essencial e atemporal... Fundamentalmente humano.
Não
há mais necessidade de remendar o espelho.
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