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 Literatura
Caleidoscópio de mim

 Por Polyne de Almeida Said
 

Era preciso compreender aquela cisão, sabia disso... Difícil é não poder ver-me inteiramente, por mais que tente, após o espelho quebrado... Fragmentos múltiplos refletem os múltiplos derivados de mim. Um certo eu elevado à sempre variável enésima potência, buscando a experiência matemática e ontológica da unidade... Ene tem que ser igual a zero, então. O zero incriado, número que não é número, este i-número, por não ser, e inúmero por ser tantos...

Enquanto o zero não esvazia a minha mente, que ainda anda muito longe do zazen, resolvo ensaiar, contemporaneamente, outros enes hipotéticos para meu ser exponencial e me surpreendo com a miríade de imagens que encontro, miragens refletidas e tão diversas, nos milhares de pedaços espalhados no assoalho de minhas vivências...

Vejo, súbito, uma garota tímida que decidiu viver sua vida no alto, contemplando grandes panoramas, viajando num balão onde se sente protegida e que lhe oferece uma falsa sensação de liberdade... Abaixo, avista incríveis cidades e se delicia com o desenho intrincado desses grandes organismos construídos pelo homem... Pensa sempre em Ítalo Calvino e nas aventuras de Marco Polo pelas Cidades Invisíveis, orgulhando-se da vantagem ilusória de um cômodo ponto de observação, que lhe permite desvelar os macro-mistérios dessa pudica e constante invisibilidade do real, restando ainda os micros, é claro, mas isso já é uma outra estória...

Passa o tempo assim, entre o sonho e a fantasia, etericamente experimentando-se no mundo.  De vez em quando, aterrissa seu balão e dá umas voltas pela terra, curiosa e extasiada com a mudança de perspectiva... Mas logo se lança ao ar novamente, fadigada com o peso daquela realidade terrenal ou simplesmente saudosa de seu fiel elemento. Descobriu um dia, investigando seu sangue ao microscópio, que possui células nômades e, a partir de então, compreendeu o porquê dessa sua inquietação face ao extático, dessa ânsia pelo mutante, pela eterna novidade, a qual, no final das contas, pode ser apenas novas formas de apreciação do mesmo, ou alturas diversas de vôo no balão...

Outra imagem então desafia essa:  a de um ser musical, que canta, escuta e celebra o cômico e o trágico da vida; alguém que ainda acredita na magia dos encontros de carne e osso, que percebe a Arte no cotidiano mais banal e que consegue acessar a pureza de um lugar intocado dentro de cada ser humano... Sobretudo, alguém que ama e cultiva o feminino em si. Um ser extremamente denso e físico, em aparente oposição à volátil e insegura hóspede de balão; mulher incrivelmente à flor da pele, que adora estar agrupada, compartilhando e multiplicando sua energia com a diversidade do mundo, trocando sorrisos e abraços, brincando despretensiosamente como fazem as criança e rindo, rindo muito...

De repente, no meio desse mosaico de cacos espelhados, encontro uma imagem singular: Um par para uma dança... Um outro vibrando na minha freqüência e que, num desses momentos de espetacular harmonia cósmica, se faz brilhar entre os demais... Coisa mais linda é o que se sucede: uma espécie de lundu-marajoara, meio tango e meio gafieira, às vezes até meio desajeitado, cheio de pernas, mãos e rebolados... Uma dança que extravasa por todos os poros, enlinhando os corpos e misturando os suores, despertando, pela verdade que revela, os olhares, os desejos e os amores de todos os outros presentes...

Nesse momento incrível, uma epifania se dá e compreendo que é na borda onde existo. Ali está meu ene-zero, minha partida e minha chegada. Nesse estreito e fértil espaço entre planos, entre cacos, realidades, pensamento, emoção, corpo e alma... Na fração de segundo que antecede a aterrissagem do balão. Somente ali encontro a verdadeira liberdade; no geométrico ponto onde, espontaneamente e longe de meu tentador controle, ocorre uma sobreposição de minhas imagens; ali onde vislumbro um infinito caleidoscópio de mim, meu ser idiossincrático, essencial e atemporal... Fundamentalmente humano.

                                    Não há mais necessidade de remendar o espelho.

 

Polyne de Almeida Said é arquiteta e urbanista.

 

 

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