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Quando ainda obscuro e
desconhecido Nosso senhor andava na
terra
e muitos discípulos o
seguiam
que raras vezes o compreendiam, amava
doutrinar às
massas
nas ruas amplas e nas
praças,
pois à face dos céus a
gente
fala melhor e mais
livremente.
Ali dos seus divinos
lábios
fluíam os ensinamentos mais sábios;
pela parábola e pelo
exemplo
faziam de cada mercado um templo.
Certa vez que, em paz e
santidade, com os seus chegava a uma
cidade, viu qualquer coisa
luzir na estrada ;
era uma ferradura
quebrada.
Disse a S. Pedro com brandura : "Pedro,
apanha essa
ferradura!"
Porém S. Pedro no
momento
tinha ocupado o pensamento
; absorto
em êxtase
profundo,
sonhava-se o dominador do
mundo, rei, papa, ou
tal que se
pareça.
Aquilo enchia-lhe a cabeça
!
E havia de dobrar a
espinha
por uma coisa tão mesquinha
!
Se fosse um cetro, uma
coroa,
mas uma ferradura à-toa!
...
E foi seguindo
distraído,
como se não tivesse ouvido.
Curvou-se Cristo com
doçura
celeste, angélica, humilde
;
ergueu do chão a
ferradura.
E quando entraram na cidade
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vendeu-a
em casa de um ferreiro. Comprou cerejas com o dinheiro, guardando-as
à sua
maneira
na manga, à falta de algibeira.
Dali
saíram por outra
porta.
Fora a campanha estava morta
;
nem flor nem sombra; ao longe, ao perto era o silêncio , era
o
deserto,
era a desolação;
ardia,
torrava, o sol do
meio-dia.
Que não valia em tal
secura
um simples gole de água pura !
Nosso
Senhor caminha à
frente.
Deixa cair
discretamente,
furtivamente, uma
cereja
que Pedro apanha, salvo
seja,
com cabriolas de
maluco.
A frutinha era mesmo o suco.
Outra
cereja no
caminho
atira o Mestre de
mansinho,
que Pedro apanha
vorazmente.
E assim por diante,não uma vez somente fê-lo o
Senhor dobrar a
espinha
mas tantas vezes quantas cerejas tinha.
Durou
a cena um bom
pedaço.
Por fim,disse o Senhor com ar
prazenteiro:
Pedro, se fosses mais
ligeiro
não tinhas tido este
cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco não se
obriga,
tarde por muito menos se afadiga.
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No
jardim dos leões , para assistir à luta, O
imperador galeia. Em derredor se escuta
A
côrte a sussurrar. Sob as mantas
escuras,
Junto ao trono , reluz o arnês das armaduras,
Enquanto
nos balcões, em volta,
descortina
A sêda de os dosséis a graça feminina.
O
augusto imperador com os dedos fez
sinal,
E, emperrado, a ranger nos gonzos, o portal
Lentamente
se abriu, e, majestoso,
assoma,
Abrindo a goela enorme e sacudindo a coma,
Um
vulto silencioso. Agita-se a bancada, Inquieta se debruça a
côrte entusiasmada,
E
o fulvo caçador das selvas , o leão, Com os olhos
em fogo espreita a multidão.
Até
que enfim descansa os músculos na
arena.
Do trono, o imperador mais outra vez acena ;
E
um segundo portão se escancarando, em
frente,
Deixa um tigre sair, aos saltos, de repente ;
Ele
fita rugindo o rei dos animais, Lambe-lhe a rubra língua os
dentes colossais,
E
a cauda mosqueada e
forte,
que
serpeia,
Açoita devagar a palidez da areia .
Rodeia
enraivecido ao grande leão
deitado,
E, engrolando um rugido, estira-se
a seu lado.
Pela
terceira vez o imperador acena ; Ao seu
gesto recua uma grade pequena,
E
a rugir e a saltar, pintalgados e
pardos,
Lançam-se de uma vez da jaula dois leopardos.
Engrifam-se
ante o tigre, e, arqueando o dorso
hirsuto,
Aferventam, bufando, a cólera do bruto,
Que,
encolhido nos rins, projeta-se e com a
garra
Volteando no ar, veloz, os leopardos agarra.
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E ruge o leão
soerguendo o pescoço jubado,
Olhando
os dois no chão do circo ensangüentado.
Nas
bóbedas restruge
em ecos o
alarido
E entre as aclamações do povo erra pedido.
Aí, do peitoril
florido de um balcão, Uma luva caiu de encantadora
mão,
E, como por querer, caiu
exatamente Entre o vulto do tigre e o do leão horrente.
E Cunegundes bela,a sorrir de
ironia, A um jovem vigoroso e esbelto lhe dizia :
"Se é verdade que
é tão ardente e tão vibrante,
O
amor que proclamais a todo e todo instante,
Cavalheiro Delorge, alevantai
do chão A luva que caiu a pouco desta mão."
A sentença fatal
apenas ele ouvia
E já o podiam ver
descendo a escadaria
Que dava para o circo; e, sem
voltar o rosto,
Sem olhar para trás,
com o semblante composto,
Com as fidalgas
feições serenas e severas,
Nos dedos levantou a luva junto
às feras.
E, da mesma
expressão indiferente e fria,
Escutava ao subir, de volta, a
escadaria,
Entre as damas gentis e os
nobres de valor,
Um murmúrio correr
de pasmo em seu louvor.
O sorriso da
bela,amável,lhe assegura Num próximo futuro a
próxima ventura.
Mas
Delorge,orgulhoso,antegozando a ofensa :
"Eu rejeito, senhora, a vossa
recompensa".
Com um sombrio prazer nos olhos
cintilantes,
Ia partir, porém,
tardou ainda, e, antes
De deixar para sempre aquela
que ele amara,
A luva lhe atirou, com
força, em plena cara .
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