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Por
Henrique Fernandes
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Amor
é fogo que arde sem se ver
Amor
é fogo que arde sem se ver;
É
ferida que dói e não se sente;
É
um contentamento descontente;
É
dor que desatina sem doer;
É
um não querer mais que bem querer;
É
solitário andar por entre a gente;
É
nunca contentar-se de contente;
É
cuidar que se ganha em se perder;
É
querer estar preso por vontade;
É
servir a quem vence, o vencedor;
É
ter com quem nos mata lealdade.
Mas
como causar pode seu favor
Nos
corações humanos amizade,
Se
tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís
Vaz de Camões)
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Não é mais um texto ou dois que fará do
grande poeta,
Luís Vaz de Camões, melhor ou pior, maior ou menor, mas,
como há tempos não se lê nada em jornais do fabuloso português,
arrisco-me em passar para algumas linhas algo sobre dele. Quem
nunca, na escola, ou por influência de um ou outro, leu ou
simplesmente passou os olhos por cima de uma poesia de Camões? É
referência em literatura e obrigação de todos estudantes
conhecerem a obra deste gênio.
O poeta nasceu por 1524 ou 25, supostamente em Lisboa. Seus pais eram
Simão Vaz de Camões e Ana de Sá.
Tudo
parece indicar, embora a questão se mantenha controversa, que Camões
pertencia à pequena nobreza. Um dos documentos oficiais, a carta de
perdão datada de 1553, dá-o como ‘cavaleiro fidalgo’ da Casa
Real. A situação de nobre não constituía qualquer garantia econômica.
O fidalgo pobre é, aliás, bem comum na literatura da época. São
especialmente baseadas num estudo bem fundamentado, as palavras de
Jorge de Sena, segundo as quais Camões seria e se sentia
‘nobre’ ‘mas perdido numa massa enorme de aristocratas
socialmente sem estado, e para sustentar os quais não havia Índias
que chegassem, nem comendas, tenças, capitanias...’.
É
difícil explicar a vastíssima e profunda cultura do poeta sem
partir do princípio de que freqüentou estudos de nível superior.
O fato de se referir, na lírica, a ‘longo tempo’ passado nas
margens do Mondego, ligado à circunstância de , pela época que
seria a dos estudos, um parente de Camões, D. Bento, ter ocupado os
cargos de prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, levou à
construção da hipótese de ter Camões estudado em Coimbra, freqüentando
o mosteiro de Santa Cruz.
Mas
nenhum documento atesta a veracidade desta hipótese; e é fora de dúvida
que não passou pela Universidade.
Antes
de 1550 estava vivendo em Lisboa, onde permaneceu até 1553. Essa
estadia foi interrompida por uma expedição a Ceuta onde foi ferido
e perdeu um dos olhos.
Em
Lisboa, participou com diversas poesias nos divertimentos poéticos
a que se entregavam os cortesãos; relacionou-se através desta
atividade literária com damas de elevada situação social, entre
as quais D. Francisca de Aragão (a quem dedica um poema antecedido
de uma carta requintada e subtil galanteria); e com fidalgos de alta
nobreza, com alguns dos quais manteve relações de amizade.
Através
do calão conceituoso, retorcido e sarcástico, descobre-se um homem
que escreve ao sabor de uma irônica despreocupação, vivendo ao
deus-dará, boêmio e desregrado.
Na
seqüência de uma desordem ocorrida no Rossio, em dia do
Corpo de Deus, na qual feriu um tal Gonçalvo Borges, foi preso
por largos meses na cadeia do Tronco e só saiu - apesar de
perdoado pelo ofendido - com a promessa de embarcar para a
Índia. Além de provável condição de
libertação, é bem possível que
Camões tenha visto nesta aventura - a mais comum entre os
portugueses de então - uma forma de ganhar a vida ou mesmo de
enriquecer.
Camões
também foi soldado durante três anos e participou em expedições
militares que ficaram recordadas na elegia O
poeta Simónides,
falando (expedição ao Malabar, em Novembro de 1553, para auxiliar
os reis de Porcá) e na canção Junto
de um seco, fero, estéril monte
(expedição ao estreito de Meca, em 1555).
Esteve
também em Macau, ou noutros pontos dos confins do Império. Sabe-se
que a embarcação em que regressava naufragou e o poeta perdeu o
que tinha amealhado, salvando a nado Os Lusíadas
na foz do rio Mecon, episódio a que alude na estância 128 do Canto
X.
Para
cúmulo da desgraça foi preso à chegada a Goa pelo governador
Francisco Barreto.
Vem
até Moçambique a expensas do capitão Pero Barreto Rolim, mas em
breve entra em conflito com ele e fica preso por dívidas. Diogo do
Couto relata mais este lamentável episódio, contando que foram
ainda os amigos que vinham da Índia que - ao encontrá-lo na miséria
- se cotizaram para o desempenharem e lhe pagarem o regresso a
Lisboa. Diz-nos ainda que, nessa altura, além dos últimos retoques
n’Os Lusíadas, trabalhava numa obra lírica, o Parnaso, que lhe
roubaram - o que, em parte, explica que não tenha publicado a lírica
em vida.
Chega
a Lisboa em 1569 e publica Os Lusíadas em 1572, conseguindo uma
censura excepcionalmente benévola.
Apesar
do enorme êxito do poema e de lhe ter sido atribuída uma fatia
anual de 15000 réis, parece ter continuado a viver pobre, talvez
pela razão apontada por Pedro Mariz: ‘como era grande gastador,
muito liberal e magnífico, não lhe duravam os bens temporais mais
que enquanto ele não via ocasião de os despender a seu
bel-prazer.’
Verídica ou legendária, esta é a nota marcante dos últimos
anos (e aliás o signo sob o qual Mariz escreve toda a biografia).
Morreu
em 10 de Junho de 1580. Algum tempo mais tarde, D. Gonçalo Coutinho
mandou gravar uma lápide para a sua campa com os dizeres: ‘Aqui
jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas de seu tempo. Viveu pobre
e miseravelmente, e assim morreu.’
As
incertezas e lacunas desta biografia, ligadas ao caráter dramático
de alguns episódios famosos (reais ou fictícios): amores impossíveis,
amadas ilustres, desterros, a miséria; e a outros acontecimentos
cheios de valor simbólico: Os Lusíadas salvos a nado, no naufrágio;
a morte em 1580 - tudo isto proporcionou a criação de um ambiente
lendário à roda de Camões que se torna bandeira de um país
humilhado.
Mais
tarde, o Romantismo divulgou uma imagem que salienta em Camões o
poeta-maldito, perseguido pelo infortúnio e incompreendido pelos
contemporâneos, desterrado e errante por ditame de um fado inexorável,
chorando os desgostos amorosos e morrendo na pátria abandonado e
reduzido à miséria.
A
imagem final que nos fica de Camões é feita de fragmentos
paradoxais: o cortesão galante; o boêmio arruaceiro; o ressentido;
o homem que se entrega a um erotismo pagão; o cristão da mais ascética
severidade. Fragmentos que se refletem e refratam na obra, que por
sua vez revela e oculta um conteúdo autobiográfico ambíguo,
deliberadamente enigmático.
Camões
publicou em vida apenas uma parte dos seus poemas, o que deu origem
a grandes problemas sobre a fixação do conjunto da obra.
Henrique Fernandes é
jornalista - henriquefernandes@ig.com.br
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