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Sociedade
Estamos
Melhorando
Por
Benedicto
Ismael Camargo Dutra
Acredite se quiser, mas
é o que estão dizendo por aí. Mais crianças nas escolas, mais
leitos nos hospitais, aumento de empregos. Tudo melhora. Já os mais
pessimistas falam o contrário: aumenta a repetência nas escolas,
aumenta a fila de espera nos hospitais, aumenta a inadimplência de
cheques de pessoas físicas, o país tem seu o crescimento contido
pela limitação das importações para não gerar déficits.
É tudo uma embrulhada,
isto é, uma coisa complicada, difícil de ser entendida. O que tem
a ver a importação com o crescimento interno?
Acontece que no período
de dólar barato as indústrias que produziam para o consumo interno
não conseguiram se ajustar, a grande maioria foi fechando as
portas, e a população acostumando-se com produtos importados de
preços menores, as delícias do comércio livre sem controles nem
barreiras.
O dólar ficou mais
caro, mas o mundo começa adentrar numa fase em que vender vai
ficando cada vez mais difícil, a competição e a concorrência por
mercados aumentam. O Brasil é pobre mas tem uma população que não
pensa muito, quer é consumir. A vida é dura, tudo é precário, a
válvula de escape da população é consumir, e isso os países que
vivem de exportação já perceberam muito bem, fazendo de tudo para
conquistar os consumidores brasileiros, cortando custos indiretos,
reduzindo juros internos, oferecendo incentivos aos exportadores.
Reduzem os salários mas mantêm a produção, o emprego e os
lucros.
Preços competitivos,
qualidade, financiamento, quem resiste? O negócio é importar. Mas
aí a balança comercial fica deficitária, assustando o mercado
financeiro que emprestou para o Brasil e espera receber os juros e
as amortizações.
Para fechar as contas do
ano corrente o Brasil precisa cavar algo em torno de US$27 bilhões.
Da balança comercial não dá para esperar contribuição
significativa, o que é lamentável. Os países querem vender mas
criam enormes dificuldades para comprar o que agrava o desequilíbrio.
Assim os países atrasados ficam sem alternativas para a governança,
a não ser se desfazer de tudo que dá lucro através das privatizações,
cortar o custeio interno e investimentos para a população, e
aumentar a dívida.
Assim as coisas vêm se
passando desde os anos 80, mas já se torna visível o outro lado da
moeda: não há crescimento nos países periféricos, a não ser de
populações de baixa renda e quase nenhum preparo. A resultante é
o crescimento das favelas que surgem da noite para o dia em torno
das principais cidades. Esse crescimento precário e negativo está
interferindo na vida afetando saúde, educação e segurança.
Os números da
marginalidade e de crimes não param de crescer. O policial passa a
ser visto como inimigo, quanto maior for a população que vive na
informalidade. Com o crescimento da população excluída e não
integrada, a presença do policial passa a ser tida como um tropeço,
e não como uma presença bem vinda de segurança e proteção,
porque o policial passa a ser visto como o representante das camadas
da população que possuem algum patrimônio e da classe rica. Isso
poderá se tornar altamente explosivo e corroer de vez a
governabilidade enfraquecendo o Estado, pondo em risco a sua
continuidade.
O crescimento da miséria
e da ignorância embrutece o ser humano fazendo-o violento. Ou por
outra forma, um espírito humano embrutecido pelo afastamento das
Leis da Criação acaba produzindo um mundo áspero e miserável
onde a violência tem um campo fértil para proliferar
descontroladamente acelerando a decadência.
Mas tudo isso não é
visto nem examinado em razão de que o sistema até agora produziu o
que suas elites desejam, ou seja o lucro medido por cifras, mas
quando se põe tudo na balança é que se percebe o enorme peso das
mazelas produzidas pelo homem, mas mesmo assim, a sua cegueira
espiritual não lhe permite vislumbrar a gravidade da situação que
poderá tender para uma tumultuada situação de anarquia muito pior
do que a atual. A melhora precisa vir, deve vir, urgentemente, mas
nada será conseguido enquanto permanecer a ótica unilateral
materialista.
Ismael Dutra é
formado em Administração de Empresas FEA/USP e é colaborador do
Jornal DCI-SP