| ....................................
Ainda
me lembro da emoção que senti quando aos 12 anos ouvi pela
primeira vez a música do grupo de rock progressista inglês
Supertramp, intitulada Fools' Overture. Era uma fita
barata, dessas que a gente comprava no antigo Jumbo-Eletro.
Dourada com inscrições em preto, foi-me passada às mãos
por meu então futuro cunhado, um sujeito sisudo, grande e de
poucas palavras.
Duas coisas causaram-me espanto e admiração: a primeira é
que aquele som harmonioso e envolvente era radicalmente
diferente das baladas de Johnny Matthis e da trilha sonora de
Estúpido Cupido. A segunda coisa foi que aquele sujeito
enorme e com cara de mau, que ansiosamente desejava conhecer
minha irmã, nunca tinha parecido ser detentor de tamanha
sensibilidade musical ou artística. Ora, eu só sabia que ele
era bem maior do que eu, queria roubar minha irmã e não
fazia muita força para me agradar. Sob a minha ótica, ele
era um intruso, desejando acabar com a harmonia reinante. Como
é que eu iria gostar dele, afinal? Porém ele, não era tão
rude e nem mal-humorado como pensei, e sabedor das
dificuldades, traçou sabiamente sua estratégia de aproximação
junto aos três irmãos da moça.
Esta atitude pouco receptiva, antipática e altamente
excludente que tive em relação ao meu cunhado é o que
geralmente ocorre nas empresas quando chega um novo gerente,
ou uma nova liderança, escolhido não de dentro dos quadros
da própria instituição mas recrutado junto ao mercado.
::
EXISTE UMA VAGA PARA GERENTE. QUEM SE CANDIDATA?
Aqueles dentro da empresa que pleiteavam o cargo vago
sentem-se desprestigiados, desvalorizados, desmotivados e
todos os outros "dês" que aparecerem no dicionário.
Naturalmente existe a frustração dos pretendentes, pois não
estamos falando apenas de uma desilusão de pensamento ou de
divagações. Estamos falando de todos os planos e objetivos já
estabelecidos nas mentes daqueles candidatos a gerente. São
sonhos, é verdade, mas que iriam se materializar com a promoção,
em forma de recursos e projetos de vida para o candidato e sua
família. Assim, aquele apartamento maior terá que ficar para
depois, o carro novo nem pensar, e a segunda lua de mel no
Caribe... esqueça.
Analisando estes fatos tão reais, fica fácil de entender por
que uma coisa apenas hipotética pode causar tanto estrago nas
relações institucionais.
::
NÃO POSSO SONHAR? ::
Deve. Sonhar faz parte de uma vida profissional sadia. Quando
o diretor resolve chamar alguém do mercado para compor a
equipe ele está buscando alguém que traga novos
conhecimentos para a equipe, que some em vez de subtrair.
Promover um ótimo técnico que não tem características de
gerente é subtrair. Perde-se um excelente técnico,
desfalcando-se a equipe, e ganha-se um gerente medíocre.
Lembre-se, bons lideres são forjados, não nascem prontos.
Gerenciar não é uma habilidade nata, com a qual nascemos. Se
você deseja assegurar sua evolução profissional e galgar
posição para as vagas abertas que exigem maior
responsabilidade e nível hierárquico, você deve procurar
junto ao seu gerente ou diretor um aconselhamento
profissional, um direcionamento que nivele as necessidades da
instituição com os seus objetivos pessoais. Este processo,
chamado de mentoring, prepara o candidato desenvolvendo
suas habilidades técnicas e gerenciais. O gerente direciona
os cursos e treinamentos de aperfeiçoamento que o candidato a
líder deve fazer para habilitá-lo a concorrer às vagas
futuras em plena condição e com todas as habilidades
desenvolvidas.
:: ESTOU HÁ ANOS NA EMPRESA.
TENHO CHANCES? ::
Enquanto o coaching é um estilo gerencial em que o líder
tem as funções de um treinador esportivo em relação a
todos os membros da equipe, o mentoring, ou
aconselhamento, deve ser reservado para as pessoas de maior
talento dentro da equipe. O funcionário com alto potencial
–chamado de mentee - deve buscar o aconselhamento
junto a um mentor que considere apto a direcionar os esforços
para seu progresso e sua carreira dentro da empresa, sendo seu
conselheiro e parceiro e não necessariamente o seu gerente
direto.
Seja qual for o nome do processo de desenvolvimento de
potenciais, coaching, mentoring ou outro
qualquer, a verdade é que sem ele o candidato não estará
apto às funções gerenciais e, por sua vez, as empresas
perderão um trunfo importante, que é o conhecimento técnico
aliado à habilidade gerencial no mesmo profissional.
Qualquer bom técnico pode se transformar em um bom gerente,
mas para agarrar as oportunidades institucionais você deve se
preparar, antes de começar a gastar por conta da promoção.
* Maurício Calixto é mestre em
Qualidade, especialista em Capacitação Gerencial, gerente de
Informática Administrativa da Unicamp, assessor de
coordenadoria geral e consultor.
E-mail: mc@tht.com.br
|